Seria o acaso

Seria o acaso. De tanto pensar e repensar em como seria seu futuro, como conheceria a mulher da sua vida. Essa coisa toda de ter uma história incrível pra contar quando for velho, ou mesmo pra viver. Mas, decidiu que seria o acaso. Tanto porque os três últimos “Vou te apresentar uma amiga” haviam dado completamente errado. Ele sempre repetira: “Nada montado dá certo”. E assim acontecia. Portanto, esperaria que algo trouxesse a tal pessoa, o que quer que fosse. Na verdade, seria melhor se…

– Ai! – Ele exclamou. Levara uma cabeçada no peito, aparentemente. Andando perdido em pensamentos, mal pode notar a menina que acabava de terminar de amarrar o tênis e estava levantando.

E era linda. Enquanto ela arrumava uma mecha caída e ria desajeitadamente, com muita vergonha aparente, é só o que ele conseguia pensar. Ela era linda. O cabelo, as bochechas que gentilmente davam espaço pro sorriso. Era linda. E enquanto ela se recompunha do choque, disse:

– Nossa, desculpa.

Era isso. Ele não podia perder esse momento. Tinha que puxar um assunto, descobrir uma maneira de mantê-la ali até lembrar como se conquistava alguém. Olhou-a de cima a baixo, procurou em todos os lugares um assunto. Como “Nossa, você também usa All-Star!” talvez não funcionasse, resolveu seguir o fluxo da conversa:

– Não.

Ela tentou entender essa resposta.

– Digo, desculpa você. Você estava parada, eu que não a vi. Você está bem?

– To, não foi nada. – Ela respondeu, passando a vergonha.

– Quer jantar comigo? – Qual seu telefone? – Você tem namorado? – Casa comigo?

Evidentemente, nenhuma dessas quatro perguntas parecia uma boa opção. Optou pelo:

– Ah, que bom então. Fiquei preocupado.

– Sim, tudo bem. Sem problemas.

E as possibilidades se esvaiam pelos segundos. Não tinha como prolongar aquilo. Será que essa era toda a assistência que o destino dava? Ele precisava tomar todo o trabalho a partir daí? O que classificaria então uma “obra do acaso” se ele teria que criar a situação inteira? Ela não poderia fazer a parte dela nesse contato também? Será que ela acreditava em acaso? Cadê ela?

Ela se fora. Olhou pra trás, viu-a apenas virando a esquina. Perdido em pensamentos, a perdeu. Claro, ele não fizera nada, deixou-a ir sem nem notar enquanto se preocupava mais com como seria do que, bem… em ser. E provavelmente nunca mais a veria. Por culpa do destino?

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Mutualismo

Mutualismo: Relação durável entre duas espécieis, vantajosa para ambos. (Fonte: Larousse Cultural)

Ela era devastadoramente linda. Mas linda mesmo. Você poderia encontrá-la no metrô, ou passar por ela no parque, (e, acredite, você iria lembrar dela por semanas) mas com certeza não duvidaria se a visse na capa de uma revista de beleza. E lá estava Ele, com Ela.

As pessoas que viam aquele casal, não conseguiam explicar como duas pessoas tão diferentes (uma tão destacável e o outro, tão ordinário) formavam uma dupla tão harmônica. E eles de fato formavam. Isso porque eles precisavam um do outro, eles ofereciam um ao outro o que ninguém mais no mundo lhes servia, isolamento.

Ela, vivia rodeada de puxa-sacos. Do colega de emprego há 2 anos ao cobrador do ônibus, todo mundo parecia precisar impressioná-la. Assim, precisava dele, que não a elogiava o tempo todo, que a conhecia bem o bastante pra não querer impressioná-la. Ela não queria isso, estava de saco cheio disso e Ele era seu escape.

Por sua vez, Ele não tinha grandes aventuras na vida. Se sentia bem com as conversas despreocupadas com ela, e claro, fazia muito bem pra ele se ver ao lado dessa menina tão destacável da multidão. Esquecia suas preocupações, suas derrotas pessoais e tudo mais que uma pessoa comum tem que lidar.

Passeavam em lojas de roupa, Ela via vestidos caríssimos e dizia: “Imagina como eu ficaria nesse vestido pra sair com você. Pode me dar de presente.”. E iam pra Tok&Stok, Ele via quartos decorados e dizia: “Quando a gente casar, nossa casa poderá ser assim”. E ambos concordavam com as idéias um do outro. Nunca namoraram, claro. Tentaram uma vez e durou duas horas. “Um dos meus relacionamentos mais duradouros”, diz Ela. “Um dos meus relacionamentos. Um dos dois que eu já tive.”, diz Ele.

E, juntos, eles passavam a noite conversando. Ela contava dos 3 namorados do último mês e Ele, da pretendente dos últimos 3 anos. Interessava muito ouvir sobre uma vida tão diferente da sua própria. De como as coisas se resolviam fácil pra quem era bonita e de como a vida parecia desafiadora pra quem não tinha tanto destaque.

Ao fim da noite, estavam cansados um do outro. Como dois irmãos que se gostam muito e não podem passar algum tempo junto sem se baterem, eles se despediam. Agora mais tranquilos, mais aliviados e prontos pra voltarem pro mundo. Não se falariam tanto durante um tempo, até que fizessem falta. Até que tivessem de saco cheio da bajulação ou do tédio do outros.

O Contador de Estrelas

Ele contava as estrelas. Toda noite deitava sob o céu e as contava, não ligando se elas estavam visíveis ou não. E se divertia como nada mais o divertia. Não ligava nem pro tempo gasto, nem pras pessoas que passavam por ele. “Quem se deita na calçada pra contar estrelas?”, pensavam os estranhos. “Pode ser divertido, mas contar as estrelas é inútil”, lhes lembravam os amigos.

Claro, ele não ligava. Contar era um pretexto. Era com as estrelas que ele refletia sobre todas as coisas, sobre a imensidão do universo, sobre a relação entre os astros, sobre a velocidade da luz e viagem no tempo. Era divertido e isso bastava. Ele sabia que era inútil, nunca iria contabilizar todas as estrelas. Nunca iria conseguir tocar uma estrela. Mas ele gostava de acreditar, no fundo, que sim.

Quando se perdia contando estrelas, se sentia próximo. Poderia sim tocar aquelas estrelas. Tinha certeza. Um dia compartilhara essa idéia com um amigo, que lhe respondeu na lata: “Cara, é inútil. Lembra quando você falava ‘não é nada, só estou contando estrelas…’? Então, não é mais. Você realmente acha que vai conseguir tocá-las. Você sabia desde o começo que não conseguiria. Mas em algum lugar no meio desse caminho, você se perdeu.”

Ele ria. Ao ouvir seu amigo, Ele deixava claro que sabia que nunca as tocaria. Mas gostava de acreditar que poderia. Não achava de verdade. “Você sempre quis ser astronauta” – continuava o amigo – “E eu disse que essa história de contar estrelas só iria reforçar a idéia de que você está longe delas. Pronto, agora você realmente acredita que pode tocá-las. E não adianta querer me dizer o contrário, que sabe a diferença entre o que você quer acreditar e o que você de fato acredita.”

Ele não ria mais. Realmente não sabia a diferença.  Conhecia de cor todas as suas contagens, sabia enumerar – numa lista, se fosse preciso – as razões que tinha para divertir tanto ao contá-las. E imaginar que poderia tocá-las era sempre o que lhe dava o sorriso antes de encostar a cabeça no travesseiro.

E,  cada vez mais forte, a realidade lhe lembrava – por meio de amigos ou por meio de sua vontade peculiar de contar estrelas em pleno meio dia – que contar as estrelas era divertido, mas não era isso que ele queria. Ele queria tocá-las.

Claro, de que adiantava ter um desejo definido, se era impossível? Teria que se acostumar a contá-las, sabia que a diversão daqueles momentos era insubstituível, mas não poderia tocá-las.  Quem sabe um dia ele viraria astronauta e poderia até colocar uma no bolso, mas isso era outra história. Agora, ele poderia se divertir muito contando-as e sonhando, durante o meio dia, em tocá-las.

Obviedades Não-ditas

As duas frases mais faladas sobre shoppings são: “Eu odeio shoppings” e “Eu só vou em shopping pra curar a depressão”. Enquanto caminhava em companhia dela, só podia chegar a duas conclusões: Ou o mundo está cheio de mentirosos, ou de depressivos. Demoraram pra encontrar um lugar tranquilo na praça de alimentação lotada e se sentaram.

Entre todas as pessoas do mundo – ou todas as pessoas presentes naquele shopping, que parecia um número bem maior – Ele duvidava que alguém conseguisse acompanhar a conversa que estavam tendo. Se parassem pra prestar atenção, reparariam em um padrão: As expressões “Cala a boca” e “Idiota” apareciam com uma frequência anormal, as vezes seguidas, as vezes não. E no intervalo entre essas palavras, mais gargalhadas do que faria sentido pra qualquer pessoa. Pra Ele, sabia, não fazia sentido.

Assim, a tarde correu bem. Ele sentia-se confortável como nunca, realmente à vontade. Ele falava sobre todas as coisas que lhe interessava, ou sobre todas as coisas do mundo. Claramente, escondendo muito bem guardados todos os pensamentos que lhe transbordavam ultimamente, que paravam em algum lugar entre o início da garganta e as cordas vocais, sem força pra sair.

Como se adiantasse, uma vez que – como ele viria a descobrir muito tempo depois, também conhecido como “tarde demais” – ela lia pensamentos. Não de uma maneira figurada, como essas pessoas que se dizem sensitivas. Ela os lia, de fato, como um super-poder, por mais ridículo que isso parecesse. Porém, ali e agora, Ele não sabia disso. Talvez, a frequência com que Ela dizia “Cala a Boca” sem que ele tivesse dito nada a denunciasse, mas Ele simplesmente não notou.

Sendo assim, todos o esforço de esconder as obviedades não-ditas eram inúteis. Ela já sabia, de tudo. Isso a dava um ar de leve despreocupação, que tanto o interessava – ou, pelo menos, parecia despreocupação. Ele não havia sido agraciado com o mesmo dom que ela e jamais entenderia essa leveza indiscritível.

Horas depois, ou “só alguns minutos” pra Ele, se despediram e deixaram no vazio da presença, o vazio de todos os “Cala a boca”, “Idiota” e todas as obviedades não ditas.

Sob a estátua

Enquanto estava sentado sobre sua base, observava o monumento que deveria ter quase dois metros de altura. Uma cobra enrolada na base, onde ele sentava, e que erguia o final do corpo e a cabeça até atingir os tais dois metros. Numa placa, se lia: Homenagem aos verdadeiros heróis da Força Expedicionária Brasileira.

E lia distraidamente o nome dos combatentes ali homenageados que nem viu alguém chegando e sentando sob a mesma estátua, mais ou menos meio metro longe dele. Quando virou para se ajeitar, a viu. Loira de cabelos compridos encaracolados, tantas sardas no rosto roseado que era impossível de contar sem que lhe tomasse uma semana inteira, olhos tão verdes que pareciam não ter fundo e um sorriso leve, descontraído, de quem se diverte em apenas sentar sob uma estátua. Ele resolve então acenar com a cabeça, dando um sorriso tímido. Ela se aproxima. Parecia estrangeira, ele pensou. Européia, talvez.

– Bom dia – ela disse.

– Bom dia – respondeu ele, estranhando a facilidade de se comunicar dela. Resolveu continuar – E aí, o que faz por aqui? Dia bonito, né?

– O mesmo que você.

– Mas eu não estou fazendo nada… Só aproveitando a tarde bonita sob uma estátua.  – riu nervosamente

– Eu também. Resolvi sair pra conhecer esse parque. Não sou daqui. – Ela informou.

– Não? – Sabia que ela era estrangeira!, ele pensou – De onde você é?

– Não ia adiantar eu falar o nome, você nunca conseguiria repetir mesmo.

– Como assim? Que lugar tem o nome tão impossível?

– É um lugarzinho no Sul, uma colônia alemã. Neu-Württemberg. Mas você pode chamar de “lugarzinho”. – Ela riu, satisfeita com sua piada e ele se surpreendeu com o quanto ela gostava de rir e quanto isso o deixava confortável.

– Qual o seu nome? – Ele decidiu perguntar. Era assim que se conhece alguém, não?

– Medaille.

– Nossa, seu nome é realmente… bonito. – Ele hesitara para falar porque, novamente sem perceber, ela havia se aproximado dele e a mão sobre o banco já encontrara a dela.

Ele estranhara a proximidade. Na verdade, ele estranhava o cenário inteiro, embora ele mesmo já nem sabia onde se encontrava. As sardas dela, antes incontáveis, agora ele podia enumerá-las, uma a uma. Estavam mais próximos do que nunca, se encaravam com ternura e ele mal pode entender quando ela disse:

– É só isso.

– Hein?

– É só isso, você sabe né? Não vai passar disso e não vai passar de agora.

– Mas…o “lugarzinho” é tão longe assim?

– Seria mais fácil se eu morasse no Suriname ou na Guiana Francesa. – responde ela com um sorriso de meia-boca.

Ele acena com a cabeça, como quem concorda com os “Termos e Condições”, mas o sorriso dela some. Ela diz:

– Não. Você não concorda. Não minta pra mim, nem pra você mesmo.

E ela se afasta aos poucos, conforme ele vai abrindo os olhos aos poucos, acordando de um sonho.

Mobilização

“Seja Você Mesmo”. É o que dizia a camiseta dele enquanto estava ali, no meio de uma manifestação política. E Ele procurava por qualquer mosca passando que estivesse mais interessante do que o discurso que ouvia do Líder do Movimento-Por-Qualquer-Coisa-Que-Eu-Não-Lembro-Agora. Claro, se alguém perguntasse porque ele estava tão desinteressado, ouviria como resposta: “Ah, nada. Apenas me distraí.”, mas na verdade, ele realmente não suportava estar ali e a razão era bem simples e tinha cabelos castanhos lindos.

Ela – por quem Ele se interessara há pouco mais de uma semana, numa conversa casual – era militante ecológica, de visão política afiada e vegetariana. Claramente, Ele não teve outra escolha se não mergulhar de cabeça nesse universo que ele mal conhecia, para aproximar-se dela. E, avaliando tudo que mudara por Ela, estar naquela manifestação de “ecochatos” – como Ele os chamava, mesmo antes de os conhecer – era bem tranquilo, quando comparado com ter que abrir mão de suculentos bifes mal-passados.

Porém, quando Ela sorria- com um daqueles sorrisos indiscritíveis – de orgulho ao ouví-lo contar que só comeu salada e pão no churrasco com os amigos, valia todo o esforço.  Passavam longas noites debatendo sempre que ela precisava de idéias inovadoras para apresentar ao Líder e assim, incrementar o poder do movimento. Havia sido assim com um grupo de debates e alguns panfletos que os dois bolaram em conjunto e que logo foram apresentadas por Ela ao Líder.

Com o tempo, ele ficara bom nisso – e, poderia admitir, surpreso com quão fácil era agradar esses militantes com as mesmas palavras de sempre – mesmo quando Ele não acreditava em uma palavra do que dizia. E esse avanço o levou ao presente momento, à mobilização que havia sido uma idéia original sua e que Ela ficou mais do que feliz em poder compartilhar com o Líder. Todos os sorrisos, beijos e abraços que ela dera em agradecimento eram o pagamento necessário para viver naquele mundo que nada pertencia a Ele.

Ao fim do dia, Ele a procura para comemorar o sucesso que havia tido o evento – que, estranhamente, ele ainda não conseguia lembrar do que se tratava, embora não esquecesse da felicidade dela ao repetir cem vezes os agradecimentos a Ele. Depois de algum tempo de procura, ele a encontra – dando amassos tão íntimos que justificavam o fato de estarem escondidos – comemorando com o Líder o sucesso da idéia que ela havia usado para poder impressioná-lo, pois esse era seu objetivo desde quando ela o conhecera, há 2 semanas, numa conversa casual.

Pras coisas se ajustarem (Procurando Amy)

O texto é a adaptação minha de uma cena do filme “Procurando Amy”, de Kevin Smith.

Saindo do restaurante, os dois correm pro carro pra evitar a chuva torrencial que se inicia. Quando já estão dentro do carro, Alyssa se gaba do quadro novo que acaba de comprar. Enquanto dirige, Holden pergunta:

– Onde você vai pendurar?
– Eu não vou. Você vai. – responde Alyssa com um sorriso.
– Você quer que eu pendure? É melhor que as feministas não ouçam você falando isso. Que uma lésbica precisou de um homem pra pendurar um quadro.
– Nãaao. Você vai pendurar na sua parede.
– Ah, claro. Porque?
– Porque retrata esse momento, como uma eterna lembrança. De hoje, da nossa amizade. De tudo. É um presente de mim, pra você, pra você sempre lembrar de nós. – Sempre que Alyssa falava assim, sempre que ela era… Ela, Holden sentia uma fisgada no estômgado. E dessa vez, deveria ser a última.
– Porque você parou o carro? – pergunta Alyssa, surpresa.
– Porque eu não consigo aguentar. Eu… Eu te amo. – E, pra ele, essas palavras eram difíceis de serem recolhidas e ditas na mesma frase.
– Me ama?
– Sim. Não como amigos, embora sejamos ótimos amigos. E não como uma confusão de carinho, que eu sei que é como você vai chamar. Eu te amo, é bem simples. E sincero. Você tem tudo que eu sempre procurei em alguém. E eu sei que você me vê como amigo e passar disso é a última coisa na sua mente. Mas eu não consigo ficar perto de você sem querer te abraçar, eu não consigo olhar nos seus olhos sem sentir aquela emoção que só existe nos filmes. Eu não consigo mais falar com você sem expressar o quanto eu te amo por tudo que você é. E eu sei que isso provavelmente vai estragar nossa amizade, mas eu tenho que dizer. Eu nunca me senti assim antes e eu não ligo. E se isso significa que a gente não vai poder sair mais, ficarei triste, mas eu não posso passar mais um dia sem tirar isso de mim. Independente da sua reação. Que, julgando pela sua cara, vai ser a dispensa inevitável… Eu aceito isso. Mas eu sei que uma pequena parte de você está hesitando. E, se realmente está, é porque você sente também e eu peço pra que não ignore isso. E tente considerar, pelo menos por 10 segundos. Alyssa, não há outra alma nesse planeta estragado que alguma vez tenha me feito metade do que eu sou quando estou com você. E eu arrisco essa amizade pra levar as coisas pro próximo nível porque tem algo entre nós. Você não pode negar isso. Mesmo se… se nunca mais conversarmos depois de hoje. Saiba que eu mudei pra sempre por causa do que você significou pra mim. E, embora eu agradeça, eu nunca precisaria de um quadro na parede pra lembrar de você.

Depois de ouvi-lo sem interromper, apenas com uma expressão indecifrável, Alyssa sai do carro, bate a porta e some no meio da chuva. Holden fica desorientado. De todas as reações, essa era a menos esperada, então ele decide ir atrás dela.

– O que você está fazendo?
– Volte pro carro e pode ir embora!
– E você vai voltar pro centro andando?
– Sim!
-Você não vai nem comentar?

Os dois gritam, talvez por raiva, talvez pra serem ouvidos sob aquela tempestade.

– Você quer um comentário? Você é ridículo!
– Por quê?
– Isso é tão injusto e você sabe disso!
– É injusto que eu tenha me apaixonado por você?
– Não! É um azar que você tenha se apaixonado pro mim! É injusto que você tenha que por isso pra fora e se colocar nessa posição de sofrimento! Por algum segundo você pensou em quem eu sou?
– E daí? As pessoas mudam.
– Ah, é fácil assim? Você se apaixona por mim e quer um romance. Nada muda pra você! Mas e eu? E eu, Holden? Não é tão simples assim! Eu não posso começar uma relação com você sem virar meu mundo inteiro de cabeça pra baixo!
– Ei! Toda relação é assim, sempre precisa de um período pras coisas se ajustarem.
– Coisas se ajustarem? Não tem como as coisas se ajustarem! Eu sou gay, Holden! É quem eu sou! E você achou que eu poderia apenas deixar isso pra trás porque você teve uma maldita quedinha?

– Se isso é uma quedinha, eu não sei se sobreviveria ao amor.

– Só… Vai embora!

A idéia mais louca de todos os tempos

Costumavam trocar insultos desde sempre, em tons de brincadeira ou não. O fato é que Ele e Ela nunca haviam sido grandes amigos nem nada do gênero e, até onde Ele sabia, nunca houve nenhum indício de qualquer mudança nisso. Inclusive, ele sempre fora da opinião de que amor e ódio não são irmãos – e, acreditava, nem mesmo primos distantes. E assim, sem muita perturbação, eles haviam levado a amizade por anos a fio.

Fazia quase 10 anos que se conheciam e nesse intervalo de tempo, Ele já esteve nas piores enrascadas possíveis, quando se trata de relacionamento e ela, nunca teve alguma preocupação com isso, até começar um namoro duradouro. Enquanto tudo isso ocorreu, a distância entre os círculos de amizade e, consequentemente, entre os dois, aumentou naturalmente e sem fazer muita diferença, na realidade. Os encontros do grupo, em que se viam, eram bem ocasionais, porém não perdiam tempo quando se tratava do antigo costume de provocarem um ao outro, até que um dos dois brincasse de maneira mais forte e a sessão se encerrar por um tempo. E assim sempre levaram.

O que é tão óbvio quanto poderia ser e ele nunca havia notado – pelo menos não de maneira tão clara – é que essa não era uma relação normal e que, de certa forma, não fazia sentido quando colocadas nesses termos de mútuo ataque despretensioso. E, de maneira ainda mais clara, essas idéias começaram a se organizar na sua cabeça em uma tarde ensolarada, sem motivo aparente. Ou seria saudade? Afinal, Ele não recebia aquele tratamento de outra pessoa e, independente de seu caráter estranho, era único. Sabia que, pessoalmente, não ficaria bem em uma relação que não o desafiasse de verdade, ou como ele tinha costume de dizer, “sem sal”. Pelo menos, era isso que agora lhe fazia sentido.

Não tardou a se encontrarem, em uma pequena reunião dos amigos e claramente, aqueles pensamentos de uma tarde perdida se resgataram tão rápido quanto seria possível e Ele se espantou ao notar a profundidade dos olhos azuis dela, que por tantos anos passaram despercebido. Era uma análise parcial levada por tais pensamentos, claro, mas de fato havia algo ali a ser notado que antes, simplesmente, não.

Ao decorrer do dia, não tardou a voltarem às trocas de insultos, mas aparentemente, agora recheados de risos notáveis e seu segundo espanto, ao juntar aos olhos sinceros, um sorriso cativante. Não sabia era óbvio desde o início ou se era tão ridículo quando parecia, mas não evitou pensar, após um momento de gargalhada, que aquela que sempre o desafiava, era quem deveria estar ao seu lado, era a relação que Ele gostaria de construir.

E, naquele momento com Ela, não parecia mais oportuno tentar descobrir o quão absurdas ou óbvias eram suas novas ideias. Foi então levando a conversa  para o rumo desejado, pois falar sobre relacionamentos sempre leva a discussão de perspectivas e, eventualmente, chegaria ao ponto final de sua conclusão.

Conforme se aprofundavam na conversa, sempre com a velha hostilidade, ele se convencia cada vez mais de que a sua ideia mais recente talvez não fosse tão ruim e que, na verdade, fazia tanto sentido que ele lamentava que não tivesse surgido antes – embora parecesse inimaginável há tantos anos atrás.

Ao citarem práticas cotidianas do relacionamento que muitas vezes passam despercebidas, Ela citou então que era muito comum seu Noivo confundir intimidade com escatologia e contar “mais do que eu precisava saber”, ela dizia rindo e fazendo cara de nojo. E foi isso. Ela tinha um Noivo. Ela tinha um relacionamento estável com o namorado desde que começara a namorar e Ele simplesmente o tirara da sua equação perfeita. Mas logo ele era inserido novamente e sua base sólida de novas ideias ia por terra abaixo, completamente o contrário do que – como notara – havia avançado o relacionamento entre Ela e seu Noivo.

Com isso, ele apenas pode continuar rindo com os insultos, agora de maneira ainda mais despretensiosos, enquanto procurava se recordar de onde poderia ter surgido essa que parecia ser a ideia mais louca de todos os tempos.

Para trás

Um corredor externo, daqueles que atravessam o exterior da casa inteira até o quintal de trás. E Ele não tinha a mínima idéia de onde estava. Era um corredor bem estreito e aos poucos, começava a reconhecer o lugar. Um pouco à sua frente, havia uma janela que dava para dentro da casa, uma cozinha. Reconhecia a cozinha com muito esforço, não via aquele cômodo há tanto tempo que mal podia acreditar. Se estivesse certo, estava na casa de um amigo que não visitava já fazia 8 anos. Era ali que ocorria a maioria das festas e encontros entre os amigos da época, era inclusive ali que ele passara momentos aflitivos com sua paixonite da época. Claro, era apenas um adolescente na época e tratava das coisas com uma preocupação excessiva, mas se recordava como se fosse o próprio dia quando confrontara a sós a menina por quem era apaixonado, naquele mesmo corredor.

Resolvera não ficar ali parado, precisava ainda descobrir o que fazia ali. Porém, um incômodo interno o dizia para ser cauteloso. Então, com cuidado se aproximou da janela e vislumbrou a cena mais estranha e ao mesmo tempo familiar, que já vira. A sua frente estavam todos os seus amigos, como em uma das festas que já esteve, todos conhecidos e se divertindo como sempre. O estranho, porém, é que pareciam exatamente como quando estavam na escola, muito mais novos. Não podia acreditar, era como se tivesse voltado no tempo – e isso parecia ainda mais ridículo quando colocado em ordem no pensamento.

E não só estava numa festa antiga, como estava especificamente na festa em que tivera aquele momento marcante com a menina. Lembrava detalhadamente do cabelo reluzente dela sob o sol da tarde, de como ela o olhava de forma apreensiva sem saber o que dizer, quando na verdade tudo já havia sido dito. Nesse momento, Ele só tinha em mente o quanto gostava dela e o quanto não haveria de dar certo – como lhe era comum na época. Ter a garota dos seus sonhos na sua frente, só parecia reforçar esse pensamento. Ela, também se reservava em sua timidez, provavelmente esperando por um próximo passo, que lhe confirmasse tudo que havia sido comentado por suas amigas nos sussurros durante as aulas. E, naquele confronto em que ele sentia a pressão pesando como o mundo, era impossível tomar qualquer atitude e simplesmente olhar nos olhos dela, já lhe custava um esforço tremendo. Diante daquela cena quase estável, não restava à jovem garota qualquer reação se não virar as costas, desacreditando em tudo que lhe havia sido dito durante as semanas anteriores. E, para Ele, que a observava caminhar de volta pro interior da casa, restava o lamento e o arrependimento instantâneo.

Sabia que hoje, quase 10 anos depois, agiria diferente. Havia passado por diferentes experiências, aprendera que nem mesmo essa história de “gostar” tinha tanto fundamento no mundo mais maduro. Aprendera que, à atualidade, era reservado o interesse e sua possível ou não demonstração. Já havia estado com outras garotas, até namorara por um tempo, sabia que toda a pressão a que se atribuía quando mais jovem, era apenas construção da sua mente inexperiente e profundamente apaixonada. Sorriu ao constatar essa certeza e saiu das memórias para voltar a se concentrar onde estava, pois ainda não entendia o que estava fazendo ali. Vislumbrava seus amigos sorrindo e pensava até que constatou o óbvio: voltara para o momento em que deixara tudo a perder – na concepção de um garoto de 13 anos, que fique bem claro – ele se alertou rapidamente. Em instantes, supôs, a menina apareceria pela entrada do corredor e iria até Ele, dando-lhe a chance de fazer tudo novamente, como desejara por um tempo. Com a diferença que, agora, era um rapaz consciente das conseqüências e que haveria de agir como sempre teve em mente.

Mas, quem surgiu em sua frente – ainda mais estranhamente – não era a menina de 8 anos atrás. Era Ela, por quem Ele despertara um interesse recente, que claramente não pertencia de maneira alguma àquele cenário. E Ela parecia não se sentia estrangeira na cena, mas agia com naturalidade e se dirigiu a Ele com passos firmes e um sorriso estampado no rosto, lhe causando um conhecido nervosismo característico de quando a via. Enfim, estavam a um passo de distância. O sol reluzia nos grandes olhos castanhos dela, que o arrastavam como uma agradável força involuntária. O que deveria fazer ali, não sabia. Ela o olhava como se esperasse alguma ação, como se tivessem combinado aquele momento há tempos atrás e Ele simplesmente não imaginava nem o que estava fazendo ali e nem o que deveria fazer. E com esse dilema que tomava toda a sua força – ou pelo menos a força restante que não era hipnotizada pelos atraentes olhos à sua frente – ele permaneceu imóvel, tentando se lembrar como ordenar aos lábios que sorrisse.

Só se moveu quando Ela demonstrou uma expressão de compreensão, registrando em sua mente a inatividade dele como a informação que lhe faltava para seguir em frente, para partir. Logo, ela se virou e o primeiro movimento dele foi esticar involuntariamente o braço como quem a seguraria – mesmo ela já estando a metros de distância. E mais uma vez, Ele viu a garota dos seus sonhos – daquele momento – lhe deixar com o arrependimento instantâneo.

Ligação

Realizando Chamada

Ela: – Alô

Ele: – Oi! Bom dia!

Ela: – Nossa… Oi, tudo certo?

Ele: – Ficou surpresa com a ligação?

Ela: – É… Bastante. Faz tempo, né?

Ele: – Muito.

Ela: – O que? Uns meses? Foi mais ou menos na época do apagão…

Ele:- 10 de novembro de 2009. Foi no dia do apagão, faz 1 ano e 6 meses.

Ela: – Verdade. A gente meio que se afastou depois disso.

Ele: – Não. Primeiro você parou de me ligar de volta. Depois, você sumiu. Foi assim.

Ela: – Não gosto que você fale assim comigo.

Ele: – Posso começar a listar as coisas que EU não gosto?

Ela: – Foi pra isso que você me ligou?

Ele: – Não. Eu quero saber pra onde você foi, quando resolveu sumir.

Ela: – Por que? Você quer vir atrás de mim?

Ele: – Por incrível que pareça, nem tudo no mundo é sobre você. Eu quero sumir daqui, dessa vida. E, sabe, eu nunca vi ninguém sumir tão bem quanto você.

Ela: – Sinto falta dessa sua ironia. Mas, enfim, sumir? Você sempre se deu bem, sempre foi o querido…

Ele: – Aí que tá. Sempre tem alguém por perto, sempre querem ser legais. Mas poucos são mais profundos que uma colher. Essa superficialidade me enche o saco. Preciso mudar…

Ela: – Acho que eu entendo.

Ele: – Com você, não. Quando você tava comigo, era diferente. Era intenso, incerto. Não sabia nem quando você estaria por perto. Mas sempre valeu a pena.

Ela: – Você sabe que isso não faz sentido, né?

Ele: – Nunca fez. E ninguém nunca entendeu.

Ela: – Se… hmm… Você ainda estaria de saco cheio e querendo sumir, se eu ainda tivesse por aí?

Ele: – … …. Acho que você me conhece, né?

Ela: – É isso. Não quero começar isso de novo. Eu te avisei.

Ele: – Eu ainda queria saber… porque? Do nada…. sem aviso nem motivo aparente.

Ela: – Sério. De novo não. Eu avisei, lá quando começamos. Eu não me prendo, nem a lugares nem a pessoas… É só como eu sou…

Ele: – Não, você… Isso era antes, você mudou. Quando a gente estava junto, você mudou. Foi diferente daqueles outros antes…

Ela: – Não. Não foi….

Ele: – …

Ela: – …

Ele: – Volta? Pelo que você deixou pra trás…. Volta?

Ela: – *click*

Chamada Encerrada