Seria o acaso

Seria o acaso. De tanto pensar e repensar em como seria seu futuro, como conheceria a mulher da sua vida. Essa coisa toda de ter uma história incrível pra contar quando for velho, ou mesmo pra viver. Mas, decidiu que seria o acaso. Tanto porque os três últimos “Vou te apresentar uma amiga” haviam dado completamente errado. Ele sempre repetira: “Nada montado dá certo”. E assim acontecia. Portanto, esperaria que algo trouxesse a tal pessoa, o que quer que fosse. Na verdade, seria melhor se…

– Ai! – Ele exclamou. Levara uma cabeçada no peito, aparentemente. Andando perdido em pensamentos, mal pode notar a menina que acabava de terminar de amarrar o tênis e estava levantando.

E era linda. Enquanto ela arrumava uma mecha caída e ria desajeitadamente, com muita vergonha aparente, é só o que ele conseguia pensar. Ela era linda. O cabelo, as bochechas que gentilmente davam espaço pro sorriso. Era linda. E enquanto ela se recompunha do choque, disse:

– Nossa, desculpa.

Era isso. Ele não podia perder esse momento. Tinha que puxar um assunto, descobrir uma maneira de mantê-la ali até lembrar como se conquistava alguém. Olhou-a de cima a baixo, procurou em todos os lugares um assunto. Como “Nossa, você também usa All-Star!” talvez não funcionasse, resolveu seguir o fluxo da conversa:

– Não.

Ela tentou entender essa resposta.

– Digo, desculpa você. Você estava parada, eu que não a vi. Você está bem?

– To, não foi nada. – Ela respondeu, passando a vergonha.

– Quer jantar comigo? – Qual seu telefone? – Você tem namorado? – Casa comigo?

Evidentemente, nenhuma dessas quatro perguntas parecia uma boa opção. Optou pelo:

– Ah, que bom então. Fiquei preocupado.

– Sim, tudo bem. Sem problemas.

E as possibilidades se esvaiam pelos segundos. Não tinha como prolongar aquilo. Será que essa era toda a assistência que o destino dava? Ele precisava tomar todo o trabalho a partir daí? O que classificaria então uma “obra do acaso” se ele teria que criar a situação inteira? Ela não poderia fazer a parte dela nesse contato também? Será que ela acreditava em acaso? Cadê ela?

Ela se fora. Olhou pra trás, viu-a apenas virando a esquina. Perdido em pensamentos, a perdeu. Claro, ele não fizera nada, deixou-a ir sem nem notar enquanto se preocupava mais com como seria do que, bem… em ser. E provavelmente nunca mais a veria. Por culpa do destino?

Sabe o que é…

Sabe o que é engraçado sobre as pessoas?

Se eu disser pra você imaginar, no estilo de um desenho animado, um Tiranossauro Rex rosa sorridente, vestindo terno e andando na rua, vindo do trabalho, você consegue.
O que é realmente engraçado é que se eu disser então  que ele está a caminho de casa, feliz, e prestes a ouvir da esposa T-Rex que seu filhinho T-Rex está com câncer terminal e que vai morrer em poucos meses, você vai ficar triste.

Você se apegou ao dragão, à família e à situação que acabou de inventar na sua própria cabeça.

É da natureza humana se apegar com essa facilidade.

Eu acho.