O Contador de Estrelas

Ele contava as estrelas. Toda noite deitava sob o céu e as contava, não ligando se elas estavam visíveis ou não. E se divertia como nada mais o divertia. Não ligava nem pro tempo gasto, nem pras pessoas que passavam por ele. “Quem se deita na calçada pra contar estrelas?”, pensavam os estranhos. “Pode ser divertido, mas contar as estrelas é inútil”, lhes lembravam os amigos.

Claro, ele não ligava. Contar era um pretexto. Era com as estrelas que ele refletia sobre todas as coisas, sobre a imensidão do universo, sobre a relação entre os astros, sobre a velocidade da luz e viagem no tempo. Era divertido e isso bastava. Ele sabia que era inútil, nunca iria contabilizar todas as estrelas. Nunca iria conseguir tocar uma estrela. Mas ele gostava de acreditar, no fundo, que sim.

Quando se perdia contando estrelas, se sentia próximo. Poderia sim tocar aquelas estrelas. Tinha certeza. Um dia compartilhara essa idéia com um amigo, que lhe respondeu na lata: “Cara, é inútil. Lembra quando você falava ‘não é nada, só estou contando estrelas…’? Então, não é mais. Você realmente acha que vai conseguir tocá-las. Você sabia desde o começo que não conseguiria. Mas em algum lugar no meio desse caminho, você se perdeu.”

Ele ria. Ao ouvir seu amigo, Ele deixava claro que sabia que nunca as tocaria. Mas gostava de acreditar que poderia. Não achava de verdade. “Você sempre quis ser astronauta” – continuava o amigo – “E eu disse que essa história de contar estrelas só iria reforçar a idéia de que você está longe delas. Pronto, agora você realmente acredita que pode tocá-las. E não adianta querer me dizer o contrário, que sabe a diferença entre o que você quer acreditar e o que você de fato acredita.”

Ele não ria mais. Realmente não sabia a diferença.  Conhecia de cor todas as suas contagens, sabia enumerar – numa lista, se fosse preciso – as razões que tinha para divertir tanto ao contá-las. E imaginar que poderia tocá-las era sempre o que lhe dava o sorriso antes de encostar a cabeça no travesseiro.

E,  cada vez mais forte, a realidade lhe lembrava – por meio de amigos ou por meio de sua vontade peculiar de contar estrelas em pleno meio dia – que contar as estrelas era divertido, mas não era isso que ele queria. Ele queria tocá-las.

Claro, de que adiantava ter um desejo definido, se era impossível? Teria que se acostumar a contá-las, sabia que a diversão daqueles momentos era insubstituível, mas não poderia tocá-las.  Quem sabe um dia ele viraria astronauta e poderia até colocar uma no bolso, mas isso era outra história. Agora, ele poderia se divertir muito contando-as e sonhando, durante o meio dia, em tocá-las.

Anúncios

Um pensamento sobre “O Contador de Estrelas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s