Mutualismo

Mutualismo: Relação durável entre duas espécieis, vantajosa para ambos. (Fonte: Larousse Cultural)

Ela era devastadoramente linda. Mas linda mesmo. Você poderia encontrá-la no metrô, ou passar por ela no parque, (e, acredite, você iria lembrar dela por semanas) mas com certeza não duvidaria se a visse na capa de uma revista de beleza. E lá estava Ele, com Ela.

As pessoas que viam aquele casal, não conseguiam explicar como duas pessoas tão diferentes (uma tão destacável e o outro, tão ordinário) formavam uma dupla tão harmônica. E eles de fato formavam. Isso porque eles precisavam um do outro, eles ofereciam um ao outro o que ninguém mais no mundo lhes servia, isolamento.

Ela, vivia rodeada de puxa-sacos. Do colega de emprego há 2 anos ao cobrador do ônibus, todo mundo parecia precisar impressioná-la. Assim, precisava dele, que não a elogiava o tempo todo, que a conhecia bem o bastante pra não querer impressioná-la. Ela não queria isso, estava de saco cheio disso e Ele era seu escape.

Por sua vez, Ele não tinha grandes aventuras na vida. Se sentia bem com as conversas despreocupadas com ela, e claro, fazia muito bem pra ele se ver ao lado dessa menina tão destacável da multidão. Esquecia suas preocupações, suas derrotas pessoais e tudo mais que uma pessoa comum tem que lidar.

Passeavam em lojas de roupa, Ela via vestidos caríssimos e dizia: “Imagina como eu ficaria nesse vestido pra sair com você. Pode me dar de presente.”. E iam pra Tok&Stok, Ele via quartos decorados e dizia: “Quando a gente casar, nossa casa poderá ser assim”. E ambos concordavam com as idéias um do outro. Nunca namoraram, claro. Tentaram uma vez e durou duas horas. “Um dos meus relacionamentos mais duradouros”, diz Ela. “Um dos meus relacionamentos. Um dos dois que eu já tive.”, diz Ele.

E, juntos, eles passavam a noite conversando. Ela contava dos 3 namorados do último mês e Ele, da pretendente dos últimos 3 anos. Interessava muito ouvir sobre uma vida tão diferente da sua própria. De como as coisas se resolviam fácil pra quem era bonita e de como a vida parecia desafiadora pra quem não tinha tanto destaque.

Ao fim da noite, estavam cansados um do outro. Como dois irmãos que se gostam muito e não podem passar algum tempo junto sem se baterem, eles se despediam. Agora mais tranquilos, mais aliviados e prontos pra voltarem pro mundo. Não se falariam tanto durante um tempo, até que fizessem falta. Até que tivessem de saco cheio da bajulação ou do tédio do outros.

O Contador de Estrelas

Ele contava as estrelas. Toda noite deitava sob o céu e as contava, não ligando se elas estavam visíveis ou não. E se divertia como nada mais o divertia. Não ligava nem pro tempo gasto, nem pras pessoas que passavam por ele. “Quem se deita na calçada pra contar estrelas?”, pensavam os estranhos. “Pode ser divertido, mas contar as estrelas é inútil”, lhes lembravam os amigos.

Claro, ele não ligava. Contar era um pretexto. Era com as estrelas que ele refletia sobre todas as coisas, sobre a imensidão do universo, sobre a relação entre os astros, sobre a velocidade da luz e viagem no tempo. Era divertido e isso bastava. Ele sabia que era inútil, nunca iria contabilizar todas as estrelas. Nunca iria conseguir tocar uma estrela. Mas ele gostava de acreditar, no fundo, que sim.

Quando se perdia contando estrelas, se sentia próximo. Poderia sim tocar aquelas estrelas. Tinha certeza. Um dia compartilhara essa idéia com um amigo, que lhe respondeu na lata: “Cara, é inútil. Lembra quando você falava ‘não é nada, só estou contando estrelas…’? Então, não é mais. Você realmente acha que vai conseguir tocá-las. Você sabia desde o começo que não conseguiria. Mas em algum lugar no meio desse caminho, você se perdeu.”

Ele ria. Ao ouvir seu amigo, Ele deixava claro que sabia que nunca as tocaria. Mas gostava de acreditar que poderia. Não achava de verdade. “Você sempre quis ser astronauta” – continuava o amigo – “E eu disse que essa história de contar estrelas só iria reforçar a idéia de que você está longe delas. Pronto, agora você realmente acredita que pode tocá-las. E não adianta querer me dizer o contrário, que sabe a diferença entre o que você quer acreditar e o que você de fato acredita.”

Ele não ria mais. Realmente não sabia a diferença.  Conhecia de cor todas as suas contagens, sabia enumerar – numa lista, se fosse preciso – as razões que tinha para divertir tanto ao contá-las. E imaginar que poderia tocá-las era sempre o que lhe dava o sorriso antes de encostar a cabeça no travesseiro.

E,  cada vez mais forte, a realidade lhe lembrava – por meio de amigos ou por meio de sua vontade peculiar de contar estrelas em pleno meio dia – que contar as estrelas era divertido, mas não era isso que ele queria. Ele queria tocá-las.

Claro, de que adiantava ter um desejo definido, se era impossível? Teria que se acostumar a contá-las, sabia que a diversão daqueles momentos era insubstituível, mas não poderia tocá-las.  Quem sabe um dia ele viraria astronauta e poderia até colocar uma no bolso, mas isso era outra história. Agora, ele poderia se divertir muito contando-as e sonhando, durante o meio dia, em tocá-las.