Sob a estátua

Enquanto estava sentado sobre sua base, observava o monumento que deveria ter quase dois metros de altura. Uma cobra enrolada na base, onde ele sentava, e que erguia o final do corpo e a cabeça até atingir os tais dois metros. Numa placa, se lia: Homenagem aos verdadeiros heróis da Força Expedicionária Brasileira.

E lia distraidamente o nome dos combatentes ali homenageados que nem viu alguém chegando e sentando sob a mesma estátua, mais ou menos meio metro longe dele. Quando virou para se ajeitar, a viu. Loira de cabelos compridos encaracolados, tantas sardas no rosto roseado que era impossível de contar sem que lhe tomasse uma semana inteira, olhos tão verdes que pareciam não ter fundo e um sorriso leve, descontraído, de quem se diverte em apenas sentar sob uma estátua. Ele resolve então acenar com a cabeça, dando um sorriso tímido. Ela se aproxima. Parecia estrangeira, ele pensou. Européia, talvez.

– Bom dia – ela disse.

– Bom dia – respondeu ele, estranhando a facilidade de se comunicar dela. Resolveu continuar – E aí, o que faz por aqui? Dia bonito, né?

– O mesmo que você.

– Mas eu não estou fazendo nada… Só aproveitando a tarde bonita sob uma estátua.  – riu nervosamente

– Eu também. Resolvi sair pra conhecer esse parque. Não sou daqui. – Ela informou.

– Não? – Sabia que ela era estrangeira!, ele pensou – De onde você é?

– Não ia adiantar eu falar o nome, você nunca conseguiria repetir mesmo.

– Como assim? Que lugar tem o nome tão impossível?

– É um lugarzinho no Sul, uma colônia alemã. Neu-Württemberg. Mas você pode chamar de “lugarzinho”. – Ela riu, satisfeita com sua piada e ele se surpreendeu com o quanto ela gostava de rir e quanto isso o deixava confortável.

– Qual o seu nome? – Ele decidiu perguntar. Era assim que se conhece alguém, não?

– Medaille.

– Nossa, seu nome é realmente… bonito. – Ele hesitara para falar porque, novamente sem perceber, ela havia se aproximado dele e a mão sobre o banco já encontrara a dela.

Ele estranhara a proximidade. Na verdade, ele estranhava o cenário inteiro, embora ele mesmo já nem sabia onde se encontrava. As sardas dela, antes incontáveis, agora ele podia enumerá-las, uma a uma. Estavam mais próximos do que nunca, se encaravam com ternura e ele mal pode entender quando ela disse:

– É só isso.

– Hein?

– É só isso, você sabe né? Não vai passar disso e não vai passar de agora.

– Mas…o “lugarzinho” é tão longe assim?

– Seria mais fácil se eu morasse no Suriname ou na Guiana Francesa. – responde ela com um sorriso de meia-boca.

Ele acena com a cabeça, como quem concorda com os “Termos e Condições”, mas o sorriso dela some. Ela diz:

– Não. Você não concorda. Não minta pra mim, nem pra você mesmo.

E ela se afasta aos poucos, conforme ele vai abrindo os olhos aos poucos, acordando de um sonho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s