O Silêncio mais confortável do Mundo (Poemas sem rima)

Imagine a cena:

Sol, com um vento delicioso que amenizava o calor.

Cidade cheia, transito. Muitas pessoas passando. Obviamente, nenhuma delas importa agora.

Se encaravam, Ele e Ela em silêncio. Afinal, a vida não tem trilha sonora de fundo. Ou tem?

Alguns sorrisos abafados, enquanto trocavam pensamentos mudos.

Ela, com enormes listas de defeitos, vazias…

Ele, com problemas lutando contra a vontade, numa batalha épica de quem é maior…

Silêncio. Mais risos. O silêncio mais confortável do mundo.

Obviedades Não-ditas

As duas frases mais faladas sobre shoppings são: “Eu odeio shoppings” e “Eu só vou em shopping pra curar a depressão”. Enquanto caminhava em companhia dela, só podia chegar a duas conclusões: Ou o mundo está cheio de mentirosos, ou de depressivos. Demoraram pra encontrar um lugar tranquilo na praça de alimentação lotada e se sentaram.

Entre todas as pessoas do mundo – ou todas as pessoas presentes naquele shopping, que parecia um número bem maior – Ele duvidava que alguém conseguisse acompanhar a conversa que estavam tendo. Se parassem pra prestar atenção, reparariam em um padrão: As expressões “Cala a boca” e “Idiota” apareciam com uma frequência anormal, as vezes seguidas, as vezes não. E no intervalo entre essas palavras, mais gargalhadas do que faria sentido pra qualquer pessoa. Pra Ele, sabia, não fazia sentido.

Assim, a tarde correu bem. Ele sentia-se confortável como nunca, realmente à vontade. Ele falava sobre todas as coisas que lhe interessava, ou sobre todas as coisas do mundo. Claramente, escondendo muito bem guardados todos os pensamentos que lhe transbordavam ultimamente, que paravam em algum lugar entre o início da garganta e as cordas vocais, sem força pra sair.

Como se adiantasse, uma vez que – como ele viria a descobrir muito tempo depois, também conhecido como “tarde demais” – ela lia pensamentos. Não de uma maneira figurada, como essas pessoas que se dizem sensitivas. Ela os lia, de fato, como um super-poder, por mais ridículo que isso parecesse. Porém, ali e agora, Ele não sabia disso. Talvez, a frequência com que Ela dizia “Cala a Boca” sem que ele tivesse dito nada a denunciasse, mas Ele simplesmente não notou.

Sendo assim, todos o esforço de esconder as obviedades não-ditas eram inúteis. Ela já sabia, de tudo. Isso a dava um ar de leve despreocupação, que tanto o interessava – ou, pelo menos, parecia despreocupação. Ele não havia sido agraciado com o mesmo dom que ela e jamais entenderia essa leveza indiscritível.

Horas depois, ou “só alguns minutos” pra Ele, se despediram e deixaram no vazio da presença, o vazio de todos os “Cala a boca”, “Idiota” e todas as obviedades não ditas.

Sob a estátua

Enquanto estava sentado sobre sua base, observava o monumento que deveria ter quase dois metros de altura. Uma cobra enrolada na base, onde ele sentava, e que erguia o final do corpo e a cabeça até atingir os tais dois metros. Numa placa, se lia: Homenagem aos verdadeiros heróis da Força Expedicionária Brasileira.

E lia distraidamente o nome dos combatentes ali homenageados que nem viu alguém chegando e sentando sob a mesma estátua, mais ou menos meio metro longe dele. Quando virou para se ajeitar, a viu. Loira de cabelos compridos encaracolados, tantas sardas no rosto roseado que era impossível de contar sem que lhe tomasse uma semana inteira, olhos tão verdes que pareciam não ter fundo e um sorriso leve, descontraído, de quem se diverte em apenas sentar sob uma estátua. Ele resolve então acenar com a cabeça, dando um sorriso tímido. Ela se aproxima. Parecia estrangeira, ele pensou. Européia, talvez.

– Bom dia – ela disse.

– Bom dia – respondeu ele, estranhando a facilidade de se comunicar dela. Resolveu continuar – E aí, o que faz por aqui? Dia bonito, né?

– O mesmo que você.

– Mas eu não estou fazendo nada… Só aproveitando a tarde bonita sob uma estátua.  – riu nervosamente

– Eu também. Resolvi sair pra conhecer esse parque. Não sou daqui. – Ela informou.

– Não? – Sabia que ela era estrangeira!, ele pensou – De onde você é?

– Não ia adiantar eu falar o nome, você nunca conseguiria repetir mesmo.

– Como assim? Que lugar tem o nome tão impossível?

– É um lugarzinho no Sul, uma colônia alemã. Neu-Württemberg. Mas você pode chamar de “lugarzinho”. – Ela riu, satisfeita com sua piada e ele se surpreendeu com o quanto ela gostava de rir e quanto isso o deixava confortável.

– Qual o seu nome? – Ele decidiu perguntar. Era assim que se conhece alguém, não?

– Medaille.

– Nossa, seu nome é realmente… bonito. – Ele hesitara para falar porque, novamente sem perceber, ela havia se aproximado dele e a mão sobre o banco já encontrara a dela.

Ele estranhara a proximidade. Na verdade, ele estranhava o cenário inteiro, embora ele mesmo já nem sabia onde se encontrava. As sardas dela, antes incontáveis, agora ele podia enumerá-las, uma a uma. Estavam mais próximos do que nunca, se encaravam com ternura e ele mal pode entender quando ela disse:

– É só isso.

– Hein?

– É só isso, você sabe né? Não vai passar disso e não vai passar de agora.

– Mas…o “lugarzinho” é tão longe assim?

– Seria mais fácil se eu morasse no Suriname ou na Guiana Francesa. – responde ela com um sorriso de meia-boca.

Ele acena com a cabeça, como quem concorda com os “Termos e Condições”, mas o sorriso dela some. Ela diz:

– Não. Você não concorda. Não minta pra mim, nem pra você mesmo.

E ela se afasta aos poucos, conforme ele vai abrindo os olhos aos poucos, acordando de um sonho.