Pras coisas se ajustarem (Procurando Amy)

O texto é a adaptação minha de uma cena do filme “Procurando Amy”, de Kevin Smith.

Saindo do restaurante, os dois correm pro carro pra evitar a chuva torrencial que se inicia. Quando já estão dentro do carro, Alyssa se gaba do quadro novo que acaba de comprar. Enquanto dirige, Holden pergunta:

– Onde você vai pendurar?
– Eu não vou. Você vai. – responde Alyssa com um sorriso.
– Você quer que eu pendure? É melhor que as feministas não ouçam você falando isso. Que uma lésbica precisou de um homem pra pendurar um quadro.
– Nãaao. Você vai pendurar na sua parede.
– Ah, claro. Porque?
– Porque retrata esse momento, como uma eterna lembrança. De hoje, da nossa amizade. De tudo. É um presente de mim, pra você, pra você sempre lembrar de nós. – Sempre que Alyssa falava assim, sempre que ela era… Ela, Holden sentia uma fisgada no estômgado. E dessa vez, deveria ser a última.
– Porque você parou o carro? – pergunta Alyssa, surpresa.
– Porque eu não consigo aguentar. Eu… Eu te amo. – E, pra ele, essas palavras eram difíceis de serem recolhidas e ditas na mesma frase.
– Me ama?
– Sim. Não como amigos, embora sejamos ótimos amigos. E não como uma confusão de carinho, que eu sei que é como você vai chamar. Eu te amo, é bem simples. E sincero. Você tem tudo que eu sempre procurei em alguém. E eu sei que você me vê como amigo e passar disso é a última coisa na sua mente. Mas eu não consigo ficar perto de você sem querer te abraçar, eu não consigo olhar nos seus olhos sem sentir aquela emoção que só existe nos filmes. Eu não consigo mais falar com você sem expressar o quanto eu te amo por tudo que você é. E eu sei que isso provavelmente vai estragar nossa amizade, mas eu tenho que dizer. Eu nunca me senti assim antes e eu não ligo. E se isso significa que a gente não vai poder sair mais, ficarei triste, mas eu não posso passar mais um dia sem tirar isso de mim. Independente da sua reação. Que, julgando pela sua cara, vai ser a dispensa inevitável… Eu aceito isso. Mas eu sei que uma pequena parte de você está hesitando. E, se realmente está, é porque você sente também e eu peço pra que não ignore isso. E tente considerar, pelo menos por 10 segundos. Alyssa, não há outra alma nesse planeta estragado que alguma vez tenha me feito metade do que eu sou quando estou com você. E eu arrisco essa amizade pra levar as coisas pro próximo nível porque tem algo entre nós. Você não pode negar isso. Mesmo se… se nunca mais conversarmos depois de hoje. Saiba que eu mudei pra sempre por causa do que você significou pra mim. E, embora eu agradeça, eu nunca precisaria de um quadro na parede pra lembrar de você.

Depois de ouvi-lo sem interromper, apenas com uma expressão indecifrável, Alyssa sai do carro, bate a porta e some no meio da chuva. Holden fica desorientado. De todas as reações, essa era a menos esperada, então ele decide ir atrás dela.

– O que você está fazendo?
– Volte pro carro e pode ir embora!
– E você vai voltar pro centro andando?
– Sim!
-Você não vai nem comentar?

Os dois gritam, talvez por raiva, talvez pra serem ouvidos sob aquela tempestade.

– Você quer um comentário? Você é ridículo!
– Por quê?
– Isso é tão injusto e você sabe disso!
– É injusto que eu tenha me apaixonado por você?
– Não! É um azar que você tenha se apaixonado pro mim! É injusto que você tenha que por isso pra fora e se colocar nessa posição de sofrimento! Por algum segundo você pensou em quem eu sou?
– E daí? As pessoas mudam.
– Ah, é fácil assim? Você se apaixona por mim e quer um romance. Nada muda pra você! Mas e eu? E eu, Holden? Não é tão simples assim! Eu não posso começar uma relação com você sem virar meu mundo inteiro de cabeça pra baixo!
– Ei! Toda relação é assim, sempre precisa de um período pras coisas se ajustarem.
– Coisas se ajustarem? Não tem como as coisas se ajustarem! Eu sou gay, Holden! É quem eu sou! E você achou que eu poderia apenas deixar isso pra trás porque você teve uma maldita quedinha?

– Se isso é uma quedinha, eu não sei se sobreviveria ao amor.

– Só… Vai embora!