A idéia mais louca de todos os tempos

Costumavam trocar insultos desde sempre, em tons de brincadeira ou não. O fato é que Ele e Ela nunca haviam sido grandes amigos nem nada do gênero e, até onde Ele sabia, nunca houve nenhum indício de qualquer mudança nisso. Inclusive, ele sempre fora da opinião de que amor e ódio não são irmãos – e, acreditava, nem mesmo primos distantes. E assim, sem muita perturbação, eles haviam levado a amizade por anos a fio.

Fazia quase 10 anos que se conheciam e nesse intervalo de tempo, Ele já esteve nas piores enrascadas possíveis, quando se trata de relacionamento e ela, nunca teve alguma preocupação com isso, até começar um namoro duradouro. Enquanto tudo isso ocorreu, a distância entre os círculos de amizade e, consequentemente, entre os dois, aumentou naturalmente e sem fazer muita diferença, na realidade. Os encontros do grupo, em que se viam, eram bem ocasionais, porém não perdiam tempo quando se tratava do antigo costume de provocarem um ao outro, até que um dos dois brincasse de maneira mais forte e a sessão se encerrar por um tempo. E assim sempre levaram.

O que é tão óbvio quanto poderia ser e ele nunca havia notado – pelo menos não de maneira tão clara – é que essa não era uma relação normal e que, de certa forma, não fazia sentido quando colocadas nesses termos de mútuo ataque despretensioso. E, de maneira ainda mais clara, essas idéias começaram a se organizar na sua cabeça em uma tarde ensolarada, sem motivo aparente. Ou seria saudade? Afinal, Ele não recebia aquele tratamento de outra pessoa e, independente de seu caráter estranho, era único. Sabia que, pessoalmente, não ficaria bem em uma relação que não o desafiasse de verdade, ou como ele tinha costume de dizer, “sem sal”. Pelo menos, era isso que agora lhe fazia sentido.

Não tardou a se encontrarem, em uma pequena reunião dos amigos e claramente, aqueles pensamentos de uma tarde perdida se resgataram tão rápido quanto seria possível e Ele se espantou ao notar a profundidade dos olhos azuis dela, que por tantos anos passaram despercebido. Era uma análise parcial levada por tais pensamentos, claro, mas de fato havia algo ali a ser notado que antes, simplesmente, não.

Ao decorrer do dia, não tardou a voltarem às trocas de insultos, mas aparentemente, agora recheados de risos notáveis e seu segundo espanto, ao juntar aos olhos sinceros, um sorriso cativante. Não sabia era óbvio desde o início ou se era tão ridículo quando parecia, mas não evitou pensar, após um momento de gargalhada, que aquela que sempre o desafiava, era quem deveria estar ao seu lado, era a relação que Ele gostaria de construir.

E, naquele momento com Ela, não parecia mais oportuno tentar descobrir o quão absurdas ou óbvias eram suas novas ideias. Foi então levando a conversa  para o rumo desejado, pois falar sobre relacionamentos sempre leva a discussão de perspectivas e, eventualmente, chegaria ao ponto final de sua conclusão.

Conforme se aprofundavam na conversa, sempre com a velha hostilidade, ele se convencia cada vez mais de que a sua ideia mais recente talvez não fosse tão ruim e que, na verdade, fazia tanto sentido que ele lamentava que não tivesse surgido antes – embora parecesse inimaginável há tantos anos atrás.

Ao citarem práticas cotidianas do relacionamento que muitas vezes passam despercebidas, Ela citou então que era muito comum seu Noivo confundir intimidade com escatologia e contar “mais do que eu precisava saber”, ela dizia rindo e fazendo cara de nojo. E foi isso. Ela tinha um Noivo. Ela tinha um relacionamento estável com o namorado desde que começara a namorar e Ele simplesmente o tirara da sua equação perfeita. Mas logo ele era inserido novamente e sua base sólida de novas ideias ia por terra abaixo, completamente o contrário do que – como notara – havia avançado o relacionamento entre Ela e seu Noivo.

Com isso, ele apenas pode continuar rindo com os insultos, agora de maneira ainda mais despretensiosos, enquanto procurava se recordar de onde poderia ter surgido essa que parecia ser a ideia mais louca de todos os tempos.

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