Para trás

Um corredor externo, daqueles que atravessam o exterior da casa inteira até o quintal de trás. E Ele não tinha a mínima idéia de onde estava. Era um corredor bem estreito e aos poucos, começava a reconhecer o lugar. Um pouco à sua frente, havia uma janela que dava para dentro da casa, uma cozinha. Reconhecia a cozinha com muito esforço, não via aquele cômodo há tanto tempo que mal podia acreditar. Se estivesse certo, estava na casa de um amigo que não visitava já fazia 8 anos. Era ali que ocorria a maioria das festas e encontros entre os amigos da época, era inclusive ali que ele passara momentos aflitivos com sua paixonite da época. Claro, era apenas um adolescente na época e tratava das coisas com uma preocupação excessiva, mas se recordava como se fosse o próprio dia quando confrontara a sós a menina por quem era apaixonado, naquele mesmo corredor.

Resolvera não ficar ali parado, precisava ainda descobrir o que fazia ali. Porém, um incômodo interno o dizia para ser cauteloso. Então, com cuidado se aproximou da janela e vislumbrou a cena mais estranha e ao mesmo tempo familiar, que já vira. A sua frente estavam todos os seus amigos, como em uma das festas que já esteve, todos conhecidos e se divertindo como sempre. O estranho, porém, é que pareciam exatamente como quando estavam na escola, muito mais novos. Não podia acreditar, era como se tivesse voltado no tempo – e isso parecia ainda mais ridículo quando colocado em ordem no pensamento.

E não só estava numa festa antiga, como estava especificamente na festa em que tivera aquele momento marcante com a menina. Lembrava detalhadamente do cabelo reluzente dela sob o sol da tarde, de como ela o olhava de forma apreensiva sem saber o que dizer, quando na verdade tudo já havia sido dito. Nesse momento, Ele só tinha em mente o quanto gostava dela e o quanto não haveria de dar certo – como lhe era comum na época. Ter a garota dos seus sonhos na sua frente, só parecia reforçar esse pensamento. Ela, também se reservava em sua timidez, provavelmente esperando por um próximo passo, que lhe confirmasse tudo que havia sido comentado por suas amigas nos sussurros durante as aulas. E, naquele confronto em que ele sentia a pressão pesando como o mundo, era impossível tomar qualquer atitude e simplesmente olhar nos olhos dela, já lhe custava um esforço tremendo. Diante daquela cena quase estável, não restava à jovem garota qualquer reação se não virar as costas, desacreditando em tudo que lhe havia sido dito durante as semanas anteriores. E, para Ele, que a observava caminhar de volta pro interior da casa, restava o lamento e o arrependimento instantâneo.

Sabia que hoje, quase 10 anos depois, agiria diferente. Havia passado por diferentes experiências, aprendera que nem mesmo essa história de “gostar” tinha tanto fundamento no mundo mais maduro. Aprendera que, à atualidade, era reservado o interesse e sua possível ou não demonstração. Já havia estado com outras garotas, até namorara por um tempo, sabia que toda a pressão a que se atribuía quando mais jovem, era apenas construção da sua mente inexperiente e profundamente apaixonada. Sorriu ao constatar essa certeza e saiu das memórias para voltar a se concentrar onde estava, pois ainda não entendia o que estava fazendo ali. Vislumbrava seus amigos sorrindo e pensava até que constatou o óbvio: voltara para o momento em que deixara tudo a perder – na concepção de um garoto de 13 anos, que fique bem claro – ele se alertou rapidamente. Em instantes, supôs, a menina apareceria pela entrada do corredor e iria até Ele, dando-lhe a chance de fazer tudo novamente, como desejara por um tempo. Com a diferença que, agora, era um rapaz consciente das conseqüências e que haveria de agir como sempre teve em mente.

Mas, quem surgiu em sua frente – ainda mais estranhamente – não era a menina de 8 anos atrás. Era Ela, por quem Ele despertara um interesse recente, que claramente não pertencia de maneira alguma àquele cenário. E Ela parecia não se sentia estrangeira na cena, mas agia com naturalidade e se dirigiu a Ele com passos firmes e um sorriso estampado no rosto, lhe causando um conhecido nervosismo característico de quando a via. Enfim, estavam a um passo de distância. O sol reluzia nos grandes olhos castanhos dela, que o arrastavam como uma agradável força involuntária. O que deveria fazer ali, não sabia. Ela o olhava como se esperasse alguma ação, como se tivessem combinado aquele momento há tempos atrás e Ele simplesmente não imaginava nem o que estava fazendo ali e nem o que deveria fazer. E com esse dilema que tomava toda a sua força – ou pelo menos a força restante que não era hipnotizada pelos atraentes olhos à sua frente – ele permaneceu imóvel, tentando se lembrar como ordenar aos lábios que sorrisse.

Só se moveu quando Ela demonstrou uma expressão de compreensão, registrando em sua mente a inatividade dele como a informação que lhe faltava para seguir em frente, para partir. Logo, ela se virou e o primeiro movimento dele foi esticar involuntariamente o braço como quem a seguraria – mesmo ela já estando a metros de distância. E mais uma vez, Ele viu a garota dos seus sonhos – daquele momento – lhe deixar com o arrependimento instantâneo.

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