2º Inferno

Chegou. Estava de pé diante da curta soleira que dava para a porta de sua casa, contemplando a fachada com expressão de alívio. Era, afinal, um retorno ao lar que deixara durante um longo período de trabalho para que pudesse viver com o que deixara para trás. Viver com quem havia deixado pra trás.
Agora, se encontrava em frente de casa, inalterada, como se tivesse parado no tempo, e essa nostalgia apertou ainda mais seu coração. A cena era a mesma da partida, exceto que trazia em seu bolso agora o fruto de sua viagem, um anel dourado com que, em uma mistura de amor, saudade e desculpas pela ausência, proporia sua amada em casamento.
Com um suspiro e com uma sensação aconchegante em seu coração, ele atravessa a soleira e bate à porta. O barulho no interior indica que a casa não está vazia, vencendo assim seu último temor de que ela houvesse voltado a morar com os pais. Então, a porta se abre e lá está ela. Sorridente, jovem, como se não houvesse passado um minuto desde a última vez que se viram. E, no semblante dela, é inegável a emoção por vê-lo de volta, porém o mesmo sorriso vagarosamente some de seu rosto dando lugar a um rosto surpreso, quase chocado.
Com a mão esquerda no bolso, envolvendo o anel, ele tenta entender a repentina mudança de expressão quando esperava talvez um abraço desesperado. Porém, olhando ao redor, nota o que lhe faltava pra decifrar a amada. Agarrada à canela da moça, está uma pequena criança e, em seu rosto, a peça que falta para entender seu quebra-cabeça. Seus traços são serenos como da mãe, mas trazem um formato diferente, herdados de alguém familiar, mas ainda desconhecido. O homem estava em choque profundo, entendendo a cena enquanto as lágrimas escorrem por seu rosto imóvel. Até que uma voz do interior da casa o desperta do transe:
– Quem é, amor?
Ele reconhece a voz. Seu estado de choque se transforma em ódio por dentro, e com a mão esquerda já fora do bolso, ele empurra a jovem com força – derrubando-a no chão – e caminha firmemente pelo corredor em direção à origem da voz. Encontra no cômodo seguinte, em pé, quem procurava. Ainda tomado pelo ódio, João do Santo Cristo reúne toda sua força pra berrar as únicas palavras que lhe vem:
– Amanhã…. As duas horas… Na Cêilândia… – ofegava furiosamente – E VOCÊ PODE ESCOLHER QUALQUER ARMA, SEU PORCO TRAIDOR!
Jeremias o encara de volta, claramente como quem já esperava por isso em algum momento. Acena com a cabeça quando João acaba de gritar, e continua imóvel, encarando-o. João se vira de costas e vai embora. Antes, pára em frente à moça estirada no chão, a serenidade dera lugar ao espanto no rosto de Maria Lúcia. Encarando-a:
– E VOCÊ SERÁ A PRÓXIMA.
E enquanto anda pela rua, processa o que acabara de presenciar, o que acabara de gritar e como sua vida estava no começo do fim.

Para entender: http://youtu.be/eL6zdEwRKws

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