Meu Erro (Cenas Aleatórias)

Distraídamente, Ele se perdia nos movimentos das chamas da fogueira à sua frente, imerso numa reflexão difusa. As pessoas ao seu redor mal o percebiam ali, quase em outro mundo. Sentia como se uma antiga canção suave acompanhasse seus pensamentos, embalando sua tristeza. O número de dúvidas que não conseguia desvendar, imaginava, poderia encher um caminhão.

Aos poucos, com o pôr do sol, seus amigos entravam na casa, diminuindo cada vez mais o volume da conversa ao seu redor. E ele observava cada um deles, que lhe retribuíam com um sorriso amarelo e uma nítida expressão de pena como se fosse merecedor de tal desprezo. Toda a situação que o levara a este momento não deixava motivos para absolvê-lo de total culpa ao mesmo tempo em que não lhe poderia ser atribuída nenhuma. Simplesmente, esperava que o que lhe incomodava, passasse o mais rápido possível. E só o que lhe ocorria era a necessidade imediata de uma resposta fundamental, embora Ele nem soubesse qual seria a pergunta.

E a fitava, do outro lado da fogueira conversando com suas amigas, olhando de canto pra ele e com a expressão mais vazia que já passara por aquele rosto onde sempre encontrara um sorriso. Notando que não se sentia confortável, Ela subitamente sugere à suas amigas que entrem e passam por ele rapidamente, até que Ele segura o braço dela com calma, dizendo:

– Podemos conversar um segundo?

Ela troca olhares com as amigas, que dizem que apóiam-na, qualquer que seja sua vontade. Então, com um aceno de cabeça, Ela pede que as amigas entrem, restando apenas os dois do lado de fora da casa.

– Qual o problema? – Pergunta ela, paciente.

– Eu só… Eu quero…. Preciso. Preciso entender. – Ele responde, organizando as palavras na hora.

– O que há pra entender? O que falta saber? – Ela indaga.

– Preciso entender o meu erro. E o que restou pra mim…

– Algum erro? E… o que restou? Não tem o que restar. Talvez algumas lições. – Ela responde, começando a se irritar.

– Não queira parecer superior. Deve haver algum erro e isso ainda não a deixaria no direito de fazer isso. Isso não a deixa no direito de… me deixar.

– Afinal, o que você quer ouvir? Motivos? Quer que eu diga que te odeio, que tem alguém melhor interessado por mim? Quer que…

– EU NÃO SEI, MERDA! NÃO SEI O QUE EU QUERO, MAS VOCÊ COSTUMAVA SE IMPORTAR, PELO MENOS! – Ele a interrompeu gritando. Não sabia o que dizia, mas sentia que precisava muito gritar. – QUALQUER COISA, DESDE QUE FAÇA SENTIDO! CHAME DE MOTIVO, DO QUE QUISER, MAS EU QUERO… PRECISO DE ALGUMA COISA PRA SABER QUE VOCÊ NÃO SIMPLESMENTE ACORDOU UM DIA E RESOLVEU MUDAR DE IDÉIA!

– Não… não faça isso comigo – Ela sentia rasgando, cada uma de suas palavras gritadas. – Não me peça pra entender, ou pra explicar, ou o que quer que você queira ouvir! Talvez… Talvez eu tenha acordado um dia e mudado de idéia, ou talvez você tenha acordado um dia, e estivesse mudado, e eu não tenha gostado.

Ele não entendia uma palavra. Na verdade, não sabia se estava mesmo ouvindo-a. Ela continuava:

-Você quer um motivo. Você quer uma prova de que não é um completo babaca. Mas duas pessoas podem simplesmente não dar certo juntas sem que uma delas seja babaca, ou que a outra seja relaxada. Seu… Nosso erro, talvez tenha sido demorar todo esse tempo pra percebermos isso.

– Então é isso? Todo esse tempo e coisa e tal… E agora não resta nada? O que nos diferencia das cinzas dessa fogueira? – Ele aponta para a fogueira, consumida, já não tão forte.

– Nada. – Ela responde enfim – Todo esse tempo e agora, somos exatamente igual às cinzas dessa fogueira.

E ela vira as costas, deixando-o com mais perguntas do que tinha antes e sem entender que a única mensagem que ela pretendia passar consistia em que, realmente, não havia nada a entender.

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