Morte

Os legistas observavam intrigados. Nunca haviam visto um caso daqueles. O corpo estirado na mesa metálica fria, agora já aberto pelo bisturi, parecia em perfeito estado para um jovem de vinte e poucos anos. Não morrera em condições agradáveis, mas nenhum dos presentes fazia idéia de como isso acontecera. Para quem o conhecia, estava irreconhecível. As pessoas estavam acostumadas a vê-lo rindo e não com os traços rígidos daquela maneira, que mais combinavam com um terno. E sabiam o quanto um terno não combinava com ele de maneira alguma. Mas era assim que estava apesar de tudo. Rígido, sem mais poder sorrir. Faziam-lhe pequenas incisões na perna, aquela perna que não mais conseguiriam correr pra aproveitar a chuva – uma de suas atividades favoritas. Os braços, onde as veias se destacavam na palidez de morte, não mais teriam força para os abraços apertados que eram sua marca registrada. Os legistas já estavam exaustos. Seus estudos não eram suficientes pra entender o que tinham diante de seus olhos.

Onde o corpo fora encontrado, a situação era ainda mais peculiar. A equipe de investigação sentada à mesa de jantar tentava entender a cena no pequeno apartamento organizado, exceto pelo único quarto. Quem entrou no quarto primeiro pode ver um pequeno monte de roupas no chão e uma das portas do armário aberta, dando visão a um espaço vazio. Aos pés do móvel havia uma grande caixa de madeira semi aberta. Na escrivaninha ao lado, encontrava-se um computador ligado e um telefone fora do gancho, pendurado pelo fio – a busca pelo corpo começou porque o telefone estivera sem comunicação por algumas horas. Sobre a cama, encontrava-se um corpo sem expressão alguma, como se nada mais habitasse aquela casca vazia. Assim que o levaram, um dos responsáveis junta a caixa do chão e a abre. Uma camada grossa de poeira que se misturava entre as roupas parecia ter sido tirada da tampa recentemente. Dentro, encontra medalhas, fotos, cartas. Lembranças.  Usando luvas, a leva para o cômodo principal, para apreciação dos outros dois investigadores.

– E agora? – Diz um deles, revirando os álbuns de fotos.

– Ele parecia feliz… – Observa a única investigadora mulher presente.

– Se ele era feliz, isso exclui a única possibilidade de suicídio. Não temos marcas de invasão nem nada do gênero. Só podemos esperando o resultado do laboratório. Enquanto isso, um de vocês precisa falar com os vizinhos. – Diz o investigador-chefe

Assim que todos voltam de suas funções, para o espanto de todos, é comunicado que os legistas dizem não tem um resultado que determine, de maneira alguma, a causa mortis. Dos vizinhos, as únicas informações coletadas indicavam que o sujeito mal parava em casa e, quando vinha, sempre estava acompanhado de outras pessoas.

Enquanto os três investigadores encostados à porta de entrada discutiam as possibilidades do caso mais sem sentido de suas carreiras, do outro lado do corredor, um vizinho entra em seu apartamento, com uma expressão estranha.

Já de idade avançada, esse vizinho reflete sobre o que se passou em seu andar. Seu semblante era um misto de sabedoria e lamentação, pois parecia ser o único que entendia o cenário ali apresentado. Conhecia pouco o jovem vizinho, mas ele não era uma pessoa complicada. Era simples e agradável, sempre cortês nos corredores. Rodeado de amigos, em casa ou quando saia. E de repente, quando se viu abandonado, em desespero tentou se prender nas memórias ao seu redor, fotos e cartas. Porém não parecera suficiente. O velho vizinho sabia o motivo da morte, que jamais seria identificado por especialistas de nenhuma área. Nenhum livro de medicina e nenhuma lógica investigativa incluía morte por total ausência de amigos.

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3 pensamentos sobre “Morte

  1. 😦 sem amigos
    acho que ficar sem os amigos é o maior medo de qualquer pessoa, morrer sozinho e sem ninguém para mante-lo vivo nas memórias D:

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