Festa

Eis que o terceiro era dispensado. Do outro lado do salão cheio Ele observava a menina mais bonita da festa e, principalmente, quantos caras ela dispensava. Sempre com aquele sorriso amarelo e sem graça, um a um eram desconfortavelmente tolerados por poucos minutos até que eles cansassem. Já houvera quem despretensiosamente a oferecesse uma bebida e até mesmo um garoto inteligente aumentara o som para precisar conversar de rosto colado.

É claro que assistindo a tudo aquilo, Ele achava ridículo. Mas não deixava de prestar atenção se a maneira como estava encostado na parede oposta – olhando pra ela – lhe garantia uma aparência agradável. Enquanto a fila de pretendentes era desbancada, a festa ia acontecendo e ele se divertia com os amigos. Ocasionalmente, espiava pra ver se algum dos presentes estava conversando com a garota que, provavelmente, nem queria estar ali, dada a situação. Fazia que não ligava, mas a cada risada ou momento em que conseguia uma desculpa, olhava novamente pra garota que parecia bastante entediada pela cena em repetição que vivia ali.

Ele imaginava o que ela estaria achando da situação e não conseguia evitar em seus pensamentos o que ela acharia dele. O que ela estaria bebendo, seria suco ou batida? Se ela bebia algo alcoólico e se teria algum problema pra ele exibir um copo de cerveja na mão. E caso começassem a conversar então, não podia simplesmente dizer o que faz da vida. Ser auxiliar de escritório não lhe garantia status em nenhuma conversa. Pensou então em dizer que estava em ascensão em uma multinacional, o que parecia muito mais atraente. Quanto ao seu curso sem futuro, optaria em dizer apenas que estuda em faculdade renomada, sem dar muitos detalhes. A carreira a se seguir, defenderia ser um desvio provisório nos sonhos mais grandiosos. Seria adequado oferecer “o mesmo que ela estava bebendo antes”? Sempre ouvira isso em filmes e sem dúvida era uma opção segura e assim ele descobriria qual o gosto dela para bebidas. Podia inclusive daí puxar assunto sobre bebidas preferidas e desfilar seu conhecimento em bebidas européias, das quais ele nunca experimentara nenhuma.

Pensou, por uma fração de segundo, em ser ele mesmo quando se aproximasse. Mas rapidamente concordou consigo mesmo que aquela era a idéia mais idiota que já tivera.

Perdido em pensamentos, Ele nem percebeu quando os amigos se dispersavam aos poucos, formando um grupo ao redor da garota que percebia indubitavelmente ser ali o centro das atenções. Resolveu se aproximar, sendo menor a pressão entre os amigos. Como agiria? Decidira ser indiferente. Com todos ali procurando se destacar, agir como se não estivesse se importando, provavelmente o daria destaque. Não riria alto nem entraria muito na conversa.

Entre papos desinteressantes e risadas estridentes a cada frase da garota, um assunto sobre as notas de 1 Real antigas a fizera abrir a carteira que rapidamente exibiu a foto de duas garotas, sendo uma delas facilmente reconhecida como a garota em questão. Um dos garotos, já um pouco bêbado, não hesitou em perguntar:

– Quem é essa gata aí na foto?

Seguramente, sem mudar a expressão, a garota respondeu:

– Minha namorada.

E cumpriu seu objetivo de pegar sua nota para exibi-la. Porém ninguém mais prestava atenção, trocavam olhares e risadinhas como agem homens em bando, naturalmente. Dado o rumo da conversa, quase que instantaneamente a maioria achara mais interessante escolher a próxima música, ou fora surpreendido por uma súbita vontade de usar o banheiro. Aos poucos, os ex-galanteadores se dispersavam e por fim Ele sobrara envolvido com Ela em um papo divertidíssimo sobre como as pessoas agem estranho.

Morte

Os legistas observavam intrigados. Nunca haviam visto um caso daqueles. O corpo estirado na mesa metálica fria, agora já aberto pelo bisturi, parecia em perfeito estado para um jovem de vinte e poucos anos. Não morrera em condições agradáveis, mas nenhum dos presentes fazia idéia de como isso acontecera. Para quem o conhecia, estava irreconhecível. As pessoas estavam acostumadas a vê-lo rindo e não com os traços rígidos daquela maneira, que mais combinavam com um terno. E sabiam o quanto um terno não combinava com ele de maneira alguma. Mas era assim que estava apesar de tudo. Rígido, sem mais poder sorrir. Faziam-lhe pequenas incisões na perna, aquela perna que não mais conseguiriam correr pra aproveitar a chuva – uma de suas atividades favoritas. Os braços, onde as veias se destacavam na palidez de morte, não mais teriam força para os abraços apertados que eram sua marca registrada. Os legistas já estavam exaustos. Seus estudos não eram suficientes pra entender o que tinham diante de seus olhos.

Onde o corpo fora encontrado, a situação era ainda mais peculiar. A equipe de investigação sentada à mesa de jantar tentava entender a cena no pequeno apartamento organizado, exceto pelo único quarto. Quem entrou no quarto primeiro pode ver um pequeno monte de roupas no chão e uma das portas do armário aberta, dando visão a um espaço vazio. Aos pés do móvel havia uma grande caixa de madeira semi aberta. Na escrivaninha ao lado, encontrava-se um computador ligado e um telefone fora do gancho, pendurado pelo fio – a busca pelo corpo começou porque o telefone estivera sem comunicação por algumas horas. Sobre a cama, encontrava-se um corpo sem expressão alguma, como se nada mais habitasse aquela casca vazia. Assim que o levaram, um dos responsáveis junta a caixa do chão e a abre. Uma camada grossa de poeira que se misturava entre as roupas parecia ter sido tirada da tampa recentemente. Dentro, encontra medalhas, fotos, cartas. Lembranças.  Usando luvas, a leva para o cômodo principal, para apreciação dos outros dois investigadores.

– E agora? – Diz um deles, revirando os álbuns de fotos.

– Ele parecia feliz… – Observa a única investigadora mulher presente.

– Se ele era feliz, isso exclui a única possibilidade de suicídio. Não temos marcas de invasão nem nada do gênero. Só podemos esperando o resultado do laboratório. Enquanto isso, um de vocês precisa falar com os vizinhos. – Diz o investigador-chefe

Assim que todos voltam de suas funções, para o espanto de todos, é comunicado que os legistas dizem não tem um resultado que determine, de maneira alguma, a causa mortis. Dos vizinhos, as únicas informações coletadas indicavam que o sujeito mal parava em casa e, quando vinha, sempre estava acompanhado de outras pessoas.

Enquanto os três investigadores encostados à porta de entrada discutiam as possibilidades do caso mais sem sentido de suas carreiras, do outro lado do corredor, um vizinho entra em seu apartamento, com uma expressão estranha.

Já de idade avançada, esse vizinho reflete sobre o que se passou em seu andar. Seu semblante era um misto de sabedoria e lamentação, pois parecia ser o único que entendia o cenário ali apresentado. Conhecia pouco o jovem vizinho, mas ele não era uma pessoa complicada. Era simples e agradável, sempre cortês nos corredores. Rodeado de amigos, em casa ou quando saia. E de repente, quando se viu abandonado, em desespero tentou se prender nas memórias ao seu redor, fotos e cartas. Porém não parecera suficiente. O velho vizinho sabia o motivo da morte, que jamais seria identificado por especialistas de nenhuma área. Nenhum livro de medicina e nenhuma lógica investigativa incluía morte por total ausência de amigos.