Entre Devaneios e Quadris

Eram poltronas confortáveis e isso não era lá muito lógico. Por que alguém colocaria poltronas confortáveis em uma balada? Não é público alvo desses lugares pessoas que não gostem de estar lá, mas foram convidadas ou cederam à vontade de alguém. Isso o fazia pensar. Quantas pessoas iam às baladas e ficavam sentados nas poltronas, segurando as carteiras e celulares dos amigos? Seus pensamentos mudavam sem motivo nem sentido. Provavelmente um efeito da música eletrônica alucinada e repetitiva quase mais alta que os próprios pensamentos. Ou efeito do álcool que continha nas cervejas compradas ao longo da noite.  Definitivamente, era esse efeito que o mandara levantar e ir pra pista. Porque, ele não fazia idéia alguma.

Uma vez lá, no meio das pessoas que sabiam o que fazer ao som de psy, se aproximou dos amigos e começou a se mover timidamente e fora do ritmo. Seus amigos sorriam pra ele, felizes pelo “avanço”, porque não era legal convidar alguém pra ficar sentado e ambos os lados sabiam disso. Enquanto o som e o álcool assumiam mais o controle, ele se soltava e ligava menos pra quem o rodeava, seu círculo de amigos parecia se divertir e ele entrava na onda.

No embalo, nem percebeu quando uma garota se aproximou por trás e o virou pelo ombro, grudando-o com ela. Dançavam juntos e se aproximam mais duas amigas da primeira garota, também se envolvendo e dançando. Uma mistura de beijos, mãos, pernas, quadris, mais beijos e os devaneios dele iam a mil. Quanto aquelas garotas teriam bebido? Parte da sua cabeça afastava esses pensamentos e aproveitava o momento incrível, esperando que a música não acabasse nunca. Eram três garotas lindas, repetia pra si mesmo que poderiam ser as mais bonitas do lugar, provavelmente. Tudo isso passava pela sua cabeça enquanto ainda iam e vinham beijos, mãos, pernas e quadris incessantes, embalados pelo som altíssimo. E elas foram embora. Assim, tão rápido quanto tinham surgido e deixando-o tão estonteado quanto o momento em que o envolveram. Seus amigos o olhavam, de longe – tinha se afastado consideravelmente, sem mesmo perceber – sem ter o que dizer, boquiabertos. Riam e trocavam palavras que ele se aproximaria pra descobrir em breve, mas antes precisava se recompor.

Parou em frente ao espelho do banheiro, onde o som era abafado e podia organizar seus pensamentos. A leve embriaguez sumira completamente, estava em estado de alerta. Em um momento, estava em casa pensando em uma boa desculpa para rejeitar a saída e no outro, estava envolvido entre três garotas fantásticas que nem sabia o nome. Elas não o conheciam, elas realmente o haviam achado atraente. Era capaz de ir a uma pista de dança e dançar com garotas bonitas tanto quanto seus amigos. Realmente era uma epifania para mudar a vida dali pra frente. Não achava que começaria a freqüentar baladas todo fim de semana, mas a mudança ali era bem maior. Era interior, o que ele achava de si mesmo, de sua aparência e do que era capaz. Sentia vontade de começar já, de chutar a porta do banheiro e sair pra um mundo que encararia diferente, vontade de dizer a todos que estava diferente após uma experiência inédita. Era vontade de ligar pra quem ele admirava secretamente e dizer que poderia ser o suficiente pra ela. E precisava ligar naquele momento, afinal já estava no lugar onde o som atrapalhava menos. Vai sacar o celular e discar os números que sabia de cor. Apalpa os bolsos, porque estava com as coisas dos amigos e não lembrava em que bolso estava seu celular.

Seus bolsos estavam vazios.

Sem seu celular, sem os celulares dos amigos. Sem carteira nem dinheiro pra voltar pra casa. Quando assimilou os fatos, percebeu que havia sido assaltado pelas três garotas mais lindas daquele lugar, entre devaneios, beijos, mãos, pernas e quadris.

Mantendo as aparências

– O problema não é com você. Na verdade, nem comigo. São os outros.

Ele mal podia acreditar que estava ouvindo uma coisa dessas. Não entendia como um almoço com a namorada acabara virando um rompimento aparentemente sem motivo. Precisava entender:

– Como assim, os outros? O que têm os outros?

Ela continuava no que tinha planejado dizer, conhecendo-o tão bem que conseguia quase que prever as suas reações:

– As pessoas, principalmente as minhas amigas. Não gostam de você e ficam comentando, falando mal do nosso namoro. Não quero continuar namorando e ouvindo falarem de mim assim.

As coisas só pareciam piorar pra ele.

– Elas não gostam de mim? Que bom então que eu não namoro com suas amigas e sim com você. Você gosta de mim?

-É claro que sim, a gente tá junto, não tá?

– Pelo que eu to ouvindo, parece que não por muito tempo.

– Não fala assim. A gente pode continuar namorando… escondido. Só não conte pra aquele amigo seu, ele não sabe ficar quieto.

Parecia, então, que Ela estava oferecendo uma condição. Ele teria que colocar numa balança: de um lado, a garota que queria a tempos e que finalmente estavam juntos. Do outro lado da balança, simplesmente, sua dignidade. Pra ele, não era uma decisão tão óbvia quanto parece. Odiava ter que fazer escolhas. Resolveu insistir, tentando evitar essa encruzilhada:

– Namorar escondido? Você tem o que? 12 anos?

– Claro que não. Eu só não quero ficar mal falada por aí.

– Você percebe o quão ofensivo é isso? Não só você tá dando mais valor pro que elas falam do que pra mim, como tá concordando com elas e com essa tal “reputação ruim” que eu nem sabia que tinha, pra começo de conversa.

– E esse é o seu problema, você não liga pro que os outros falam! A vida se vive em sociedade. Você precisa saber o que acham e o que esperam de você.

– Então esse é o meu maior defeito e maior orgulho. Se você tem problema com isso, se acha que vale mais o que os outros pensam de nós, acima do que nós realmente somos, então não tem jeito.

– É! Não tem jeito.

E vai embora. Ela o deixa sentado, ainda processando o absurdo que acabara de ouvir e em partes, intrigado pra descobrir o que falavam tanto dele. Perdera a garota, não sabia como andava essa tal dignidade e sinceramente, não sabia nem se devia continuar sentado ali processando ou ir embora.

Enquanto eram jovens, ele não parecia ter se saído bem. Mal sabia Ele que alguns anos depois, estaria bem, namorando uma garota que surgira nessas confusões da vida enquanto Ela casaria prematuramente com um homem 20 anos mais velho, que a engravidara depois de “um caso escondido, pra que os vizinhos não falem mal”.

Caminho Contrário

A cada semana saem novas pesquisas dizendo o quanto as pessoas passam muito tempo em frente à TV, ou que a bilheteria do cinema alcançou limite nunca visto. Mas é bastante duvidável. Não faz efeito nas pessoas. Se as pessoas assistissem tanta novela e filme, as coisas seriam diferentes por aí. Exceto raras exceções, boas ou ruins, o vilão é punido e o mocinho se dá bem no fim. Ou seja, as pessoas a essa altura deveriam ter aprendido que o ser vilão não é a melhor atitude a se tomar. As pessoas teriam aprendido que os roteiros são baseados metade em realidade e metade em como as pessoas queriam que fosse a realidade.

Tudo se resume a aquela idéia de “Quando um não quer, dois não brigam”. E quando mais de dois querem que vilões se dêem mal e as coisas se ajustem como deviam ser? Pois é. As pessoas levam a influência pro caminho contrário. A vida imita a arte, a arte imita a vida, sei lá. Mas o melhor seria se a vida imitasse a arte. Porque a gente não pode tomar o exemplo de um herói do cotidiano que se arrisca a fazer algo, indo contra tudo que indica o contrário, só por achar que dará certo? Sabe a expectativa que fica de que tudo dê certo para esse herói? Imagina então ela convertida em energia pra ser esse herói. Se as pessoas assistissem tanto filme como dizem as pesquisas e se influenciassem no caminho correto, teríamos mais finais felizes.