À Espera (Cenas Aleatórias)

Estão os dois juntos. Esperam o metrô, um de frente ao outro, na plataforma. Conversam sobre qualquer coisa, pensativos demais para prestar atenção nas próprias palavras. Até que Ele, dividido entre incômodo e curiosidade, resolve perguntar:

– O que você tem?

Ela responde, ainda com um olhar perdido, que não tem nada, mas ele insiste.

– Hm… De saco cheio de mim mesma. – Ela diz, tentando colocar em palavras o incomunicável.

Em resposta, ele aponta os trilhos do trem, como quem oferece uma solução simples e Ela rapidamente tira a mochila e vai até a beira da plataforma, olhando para baixo. Ele a puxa pelo braço, com mais força do que pretendia, tomado por um reflexo.

Ela ri. Ele não vê graça, mas força um sorriso, encarando-a tomado por um leve desespero que some tão rápido quando surgiu. Ela diz:

– Não é pra tanto.  Tenho muito pra viver ainda. – E começa a cantar “Temos muito ainda por fazer/ Não olhe pra trás/ Apenas começamos” enquanto tenta, em vão, prender o cabelo sem presilha. E Ele mexe distraidamente nos cabelos ruivos que insistiram em ficar soltos. Elogia-a. A garota ri e estica as mãos para Ele, mas o que Ela diz enquanto isso se perde entre pensamentos, tão rápidos e confusos, que Ele mal consegue processá-los ao segurar suas mãos.

Encaram-se, numa costumeira brincadeira de imaginar o que o outro estaria pensando. E sentindo que Ela consegue lê-lo, tenta afastar da sua mente os pensamentos óbvios. Não consegue. Afinal, ela sabe. E isso é motivo de um certo desconforto agradável. Um orgulho por ser sincero, mas que ao mesmo tempo se pergunta se aprova onde chegou com essa sinceridade.

Volta suas atenções para Ela. Talvez estivesse, como ele, numa nebulosidade de pensamentos indecifráveis. Ou estaria terminando em silêncio a canção que começara.

E as mãos permaneceram juntas até a chegada do metrô, quando se separaram pra arrumar suas mochilas nas costas e ir embora.

Bruno Conrado.

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5 pensamentos sobre “À Espera (Cenas Aleatórias)

  1. Sentir-se como Ela se sentiu dói… E eu sei… Aliás, sentir-se pior que ela e ter uma maneira mais limpa e tão rápida quanto… de fazer o que lhe foi sugerido, ali, disponível, é pior ainda… e optar por continuar… e optar pelo mais difícil de novo!
    Sempre disse que quem se mata é covarde!
    Nunca demonstrei minha posição… Tenho, realmente, coragem?
    As drogas lícitas às vezes respondem pela vontade do ser humano. As drogas lícitas, às vezes, também matam!

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