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Pedaço do Mundo

Aquilo era São Paulo. Aqueles prédios enormes e brilhantes que faziam a Avenida Paulista a noite ser única. Era um momento de apreciação tão grande que por um segundo se esquecia o cansaço de um dia cheio, de estar num ponto de ônibus esperando pra voltar pra casa. Ali se sentia em casa, sentia orgulho. As vezes, desejava que o mundo conhecesse melhor a Paulista, que aparecesse nos filmes, que fosse referência para estrangeiros, queria compartilhá-la com o mundo inteiro.
E estava perdido nesses pensamentos quando parte do mundo inteiro lhe interrompeu.
Era uma pequena parte, se for considerar o mundo inteiro. Mas Ela era linda. Os olhos verdes mais fundos que já vira, recebendo de bandeija o brilho dos prédios que se encerravam num sorriso desajeitado.
Ela acabara de trombar nele, e dizia:
- I’m sorry. Hm… D… De… Derrculpa.
Ela parecia definitivamente perdida. Com um mapa do metrô meio amassado na mão, ela olhava ao redor e pra ele, como que procurando uma referência ou esperando uma resposta.
- Não foi nada. – Ele disse, rápido o suficiente pra racionar que ela não o entenderia. Precisava falar comela em inglês, claro.
Ele não sabia inglês. Maldito momento em que – quando teve a opção – preferiu suas aulas de guitarra à começar um cursinho de inglês. “Claro, aprender a tocar um instrumento é o que eu preciso. Sabe, garotas e música…”. E agora, odiava essa decisão idiota. Sem inglês, não sentia como isso teria algum avanço.
Como “Não foi nada” podia significar pra ela tanto “Não foi nada.” quanto “Sai da minha frente”, ela resolveu ignorar o idioma local e tentar se localizar. Apontando aleatóriamente para o mapa do metrô, repetia:
- Paulista, Paulista.
Estavam na Paulista, como ele poderia ajudá-la? Se ela estivesse apontando qualquer outro lugar, tentaria indicá-lo. Mas não, ele não podia ajudá-la.
Ela o olhava com cara de quem pede desculpas por incomodar, mas que vai embora se ele ficar só encarando e não tentar se comunicar.
Mas ele estava perdido. Aqueles enormes olhos verdes lhe pediam e ele simplesmente não podia ajudar.
Sem conseguir sua resposta, Ela foi embora e ele só pode ouvir:
- Damn! I just wanted a nice guy to guide me and spend the night with me.
E ele só esperava que não tivesse sendo xingado, porque tinha certeza que “damn” não significava coisa boa.

[sem título]

- Seu coração tá batendo muito rápido.

- É involuntário.

Fascinação

Sempre me fascinei por estradas. Milhas passando em segundos, as faixas intermináveis no asfalto, as mais incríveis paisagens de 15 minutos atrás. A velocidade com que as coisas se vão.
Sempre me fascinei pela velocidade. Das bicicletas aos 10, dos carros aos 15 e da vida aos 20. O quanto pessoas que se demoraram uma hora vão embora, como as pessoas principais surgiram num piscar de olhos. E como você apareceu no meio desse caminho.
Sempre me fascinei por você. Não, na verdade não. Não a notei até que estivesse estatelada na minha frente. Não lhe procurei até que fosse estritamente necessário. Não a amei até 15 minutos atrás.

Seria o acaso

Seria o acaso. De tanto pensar e repensar em como seria seu futuro, como conheceria a mulher da sua vida. Essa coisa toda de ter uma história incrível pra contar quando for velho, ou mesmo pra viver. Mas, decidiu que seria o acaso. Tanto porque os três últimos “Vou te apresentar uma amiga” haviam dado completamente errado. Ele sempre repetira: “Nada montado dá certo”. E assim acontecia. Portanto, esperaria que algo trouxesse a tal pessoa, o que quer que fosse. Na verdade, seria melhor se…

- Ai! – Ele exclamou. Levara uma cabeçada no peito, aparentemente. Andando perdido em pensamentos, mal pode notar a menina que acabava de terminar de amarrar o tênis e estava levantando.

E era linda. Enquanto ela arrumava uma mecha caída e ria desajeitadamente, com muita vergonha aparente, é só o que ele conseguia pensar. Ela era linda. O cabelo, as bochechas que gentilmente davam espaço pro sorriso. Era linda. E enquanto ela se recompunha do choque, disse:

- Nossa, desculpa.

Era isso. Ele não podia perder esse momento. Tinha que puxar um assunto, descobrir uma maneira de mantê-la ali até lembrar como se conquistava alguém. Olhou-a de cima a baixo, procurou em todos os lugares um assunto. Como “Nossa, você também usa All-Star!” talvez não funcionasse, resolveu seguir o fluxo da conversa:

- Não.

Ela tentou entender essa resposta.

- Digo, desculpa você. Você estava parada, eu que não a vi. Você está bem?

- To, não foi nada. – Ela respondeu, passando a vergonha.

- Quer jantar comigo? – Qual seu telefone? – Você tem namorado? – Casa comigo?

Evidentemente, nenhuma dessas quatro perguntas parecia uma boa opção. Optou pelo:

- Ah, que bom então. Fiquei preocupado.

- Sim, tudo bem. Sem problemas.

E as possibilidades se esvaiam pelos segundos. Não tinha como prolongar aquilo. Será que essa era toda a assistência que o destino dava? Ele precisava tomar todo o trabalho a partir daí? O que classificaria então uma “obra do acaso” se ele teria que criar a situação inteira? Ela não poderia fazer a parte dela nesse contato também? Será que ela acreditava em acaso? Cadê ela?

Ela se fora. Olhou pra trás, viu-a apenas virando a esquina. Perdido em pensamentos, a perdeu. Claro, ele não fizera nada, deixou-a ir sem nem notar enquanto se preocupava mais com como seria do que, bem… em ser. E provavelmente nunca mais a veria. Por culpa do destino?

Ponto e Reticências

Na escrita, ela sempre deixava pontos finais. “Fica esteticamente melhor.”, ela dizia.
Ele, por sua vez, deixava reticências. “Deixa um tom mais agradável…”, ele dizia.
Na vida, faziam o contrário.

Sabe o que é…

Sabe o que é engraçado sobre as pessoas?

Se eu disser pra você imaginar, no estilo de um desenho animado, um Tiranossauro Rex rosa sorridente, vestindo terno e andando na rua, vindo do trabalho, você consegue.
O que é realmente engraçado é que se eu disser então  que ele está a caminho de casa, feliz, e prestes a ouvir da esposa T-Rex que seu filhinho T-Rex está com câncer terminal e que vai morrer em poucos meses, você vai ficar triste.

Você se apegou ao dragão, à família e à situação que acabou de inventar na sua própria cabeça.

É da natureza humana se apegar com essa facilidade.

Eu acho.

Mutualismo

Mutualismo: Relação durável entre duas espécieis, vantajosa para ambos. (Fonte: Larousse Cultural)

Ela era devastadoramente linda. Mas linda mesmo. Você poderia encontrá-la no metrô, ou passar por ela no parque, (e, acredite, você iria lembrar dela por semanas) mas com certeza não duvidaria se a visse na capa de uma revista de beleza. E lá estava Ele, com Ela.

As pessoas que viam aquele casal, não conseguiam explicar como duas pessoas tão diferentes (uma tão destacável e o outro, tão ordinário) formavam uma dupla tão harmônica. E eles de fato formavam. Isso porque eles precisavam um do outro, eles ofereciam um ao outro o que ninguém mais no mundo lhes servia, isolamento.

Ela, vivia rodeada de puxa-sacos. Do colega de emprego há 2 anos ao cobrador do ônibus, todo mundo parecia precisar impressioná-la. Assim, precisava dele, que não a elogiava o tempo todo, que a conhecia bem o bastante pra não querer impressioná-la. Ela não queria isso, estava de saco cheio disso e Ele era seu escape.

Por sua vez, Ele não tinha grandes aventuras na vida. Se sentia bem com as conversas despreocupadas com ela, e claro, fazia muito bem pra ele se ver ao lado dessa menina tão destacável da multidão. Esquecia suas preocupações, suas derrotas pessoais e tudo mais que uma pessoa comum tem que lidar.

Passeavam em lojas de roupa, Ela via vestidos caríssimos e dizia: “Imagina como eu ficaria nesse vestido pra sair com você. Pode me dar de presente.”. E iam pra Tok&Stok, Ele via quartos decorados e dizia: “Quando a gente casar, nossa casa poderá ser assim”. E ambos concordavam com as idéias um do outro. Nunca namoraram, claro. Tentaram uma vez e durou duas horas. “Um dos meus relacionamentos mais duradouros”, diz Ela. “Um dos meus relacionamentos. Um dos dois que eu já tive.”, diz Ele.

E, juntos, eles passavam a noite conversando. Ela contava dos 3 namorados do último mês e Ele, da pretendente dos últimos 3 anos. Interessava muito ouvir sobre uma vida tão diferente da sua própria. De como as coisas se resolviam fácil pra quem era bonita e de como a vida parecia desafiadora pra quem não tinha tanto destaque.

Ao fim da noite, estavam cansados um do outro. Como dois irmãos que se gostam muito e não podem passar algum tempo junto sem se baterem, eles se despediam. Agora mais tranquilos, mais aliviados e prontos pra voltarem pro mundo. Não se falariam tanto durante um tempo, até que fizessem falta. Até que tivessem de saco cheio da bajulação ou do tédio do outros.

O Contador de Estrelas

Ele contava as estrelas. Toda noite deitava sob o céu e as contava, não ligando se elas estavam visíveis ou não. E se divertia como nada mais o divertia. Não ligava nem pro tempo gasto, nem pras pessoas que passavam por ele. “Quem se deita na calçada pra contar estrelas?”, pensavam os estranhos. “Pode ser divertido, mas contar as estrelas é inútil”, lhes lembravam os amigos.

Claro, ele não ligava. Contar era um pretexto. Era com as estrelas que ele refletia sobre todas as coisas, sobre a imensidão do universo, sobre a relação entre os astros, sobre a velocidade da luz e viagem no tempo. Era divertido e isso bastava. Ele sabia que era inútil, nunca iria contabilizar todas as estrelas. Nunca iria conseguir tocar uma estrela. Mas ele gostava de acreditar, no fundo, que sim.

Quando se perdia contando estrelas, se sentia próximo. Poderia sim tocar aquelas estrelas. Tinha certeza. Um dia compartilhara essa idéia com um amigo, que lhe respondeu na lata: “Cara, é inútil. Lembra quando você falava ‘não é nada, só estou contando estrelas…’? Então, não é mais. Você realmente acha que vai conseguir tocá-las. Você sabia desde o começo que não conseguiria. Mas em algum lugar no meio desse caminho, você se perdeu.”

Ele ria. Ao ouvir seu amigo, Ele deixava claro que sabia que nunca as tocaria. Mas gostava de acreditar que poderia. Não achava de verdade. “Você sempre quis ser astronauta” – continuava o amigo – “E eu disse que essa história de contar estrelas só iria reforçar a idéia de que você está longe delas. Pronto, agora você realmente acredita que pode tocá-las. E não adianta querer me dizer o contrário, que sabe a diferença entre o que você quer acreditar e o que você de fato acredita.”

Ele não ria mais. Realmente não sabia a diferença.  Conhecia de cor todas as suas contagens, sabia enumerar – numa lista, se fosse preciso – as razões que tinha para divertir tanto ao contá-las. E imaginar que poderia tocá-las era sempre o que lhe dava o sorriso antes de encostar a cabeça no travesseiro.

E,  cada vez mais forte, a realidade lhe lembrava – por meio de amigos ou por meio de sua vontade peculiar de contar estrelas em pleno meio dia – que contar as estrelas era divertido, mas não era isso que ele queria. Ele queria tocá-las.

Claro, de que adiantava ter um desejo definido, se era impossível? Teria que se acostumar a contá-las, sabia que a diversão daqueles momentos era insubstituível, mas não poderia tocá-las.  Quem sabe um dia ele viraria astronauta e poderia até colocar uma no bolso, mas isso era outra história. Agora, ele poderia se divertir muito contando-as e sonhando, durante o meio dia, em tocá-las.

Uma canção sobre amor, ah o amor…

QUASE um post, cantado pela linda da Clarice Falcão.

O Silêncio mais confortável do Mundo (Poemas sem rima)

Imagine a cena:

Sol, com um vento delicioso que amenizava o calor.

Cidade cheia, transito. Muitas pessoas passando. Obviamente, nenhuma delas importa agora.

Se encaravam, Ele e Ela em silêncio. Afinal, a vida não tem trilha sonora de fundo. Ou tem?

Alguns sorrisos abafados, enquanto trocavam pensamentos mudos.

Ela, com enormes listas de defeitos, vazias…

Ele, com problemas lutando contra a vontade, numa batalha épica de quem é maior…

Silêncio. Mais risos. O silêncio mais confortável do mundo.

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